A reabertura do mercado de ofertas iniciais de ações (IPO, na sigla em inglês) para companhias brasileiras, depois de um hiato de mais de quatro anos sem nenhuma operação, vai começar em 2026 pelos Estados Unidos. Algumas companhias, como o Agibank, focado em crédito consignado, e a Abra, dona da Gol, já estão em estágio avançado de preparação. Já na B3, a bolsa brasileira, a volta deve ficar para 2027.
A expectativa de queda de juros no Brasil e nos EUA – o que já vem acontecendo – deve estimular uma busca maior por investimento em ações. Mas no mercado doméstico, a taxa Selic devendo cair, no máximo, para 12% ao ano e as eleições presidenciais incertas devem frear a retomada dos IPOs, parados desde agosto de 2021.
Banqueiros de investimento não descartam uma ou outra grande operação após as eleições, entre empresas sem opção de capitalização a não ser a bolsa, citando o setor de saneamento e, notadamente, a Aegea, que tem uma enorme agenda de investimentos à frente. Mas o fluxo maior de ofertas só é esperado para o ano seguinte.
“Em IPO, a política é 100%”, diz o chefe do banco de investimento do Bradesco BBI, André Moor. Ele ressalta que os investidores estarão atentos a fatores como a política fiscal dos principais candidatos, e pesquisas mostrando mudanças na disputa vão trazer volatilidade e afetar o apetite dos investidores.
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O mais provável em 2026 são ofertas de ações de empresas já listadas, os chamados follow-on, destaca o executivo. Em 2025, foram R$ 5 bilhões captados com essas ofertas, incluindo a da construtora Cury em dezembro, uma forte queda ante os R$ 25 bilhões de 2024 e os R$ 57 bilhões em 2023.
Em Nova York
Se a perspectiva para IPO aqui é baixa, em Nova York, as companhias brasileiras devem ter mais sucesso. A última estreia de uma companhia brasileira via IPO em Wall Street foi o Nubank, em dezembro de 2021.
“Fomos o último grande IPO brasileiro, depois a porta fechou”, comentou o fundador e CEO do Nubank, David Vélez, ao falar dos quatro anos da operação, que levantou US$ 2,8 bilhões e “nenhum centavo” foi usado ainda.
Ele conta que já havia na época muito ceticismo e vários questionamentos dos investidores sobre as perspectivas dos negócios – se era lucrativo e se as contas iam fechar.
No caso do banco digital, em quatro anos, o Nubank conseguiu multiplicar por dez seus os lucros e receitas e atraiu 80 milhões de clientes e como reflexo as ações acumulam alta de 80%.
“A nossa convicção é que vamos ter transações de IPO nos Estados Unidos antes de ter no Brasil”, afirma o co-responsável pelo banco de investimento e chefe de Equity Capital do Bank of America (BofA), Bruno Saraiva.
Não será um movimento muito aquecido, ressalta, mas algumas empresas serão bem sucedidas. “Lá o mercado continua se acelerando, segue construtivo e as operações estão saindo”, dz
Empresas de alto crescimento serão as principais candidatas, avalia Saraiva. Para ele, no primeiro semestre devem ter algumas operações. Ele não cita nomes, mas entre os candidatos citados na Faria Lima, além das duas mencionadas acima, nomes como PicPay e Cloudwalk (dona da InfinitePay) estão bem cotados.
Mais volátil
Normalmente, as ofertas nos EUA são de ao menos US$ 500 milhões. Agibank e PicPay, de acordo com interlocutores, já escolheram o sindicato de bancos e fizeram arquivamentos confidenciais na Securities and Exchange Commission (SEC), que regula o mercado acionário americano. A Abra também anunciou que fez este arquivamento e já tem um prospecto preliminar, também confidencial.
Na visão do codiretor de mercados globais para a América Latina do UBS BB, Marcelo Okura, a tendência em 2026 é de um ano com volatilidade alta na bolsa, mas com volume de estrangeiros e de negócios totais na B3 “levemente superior” ao de 2025.
Pesquisa interna com clientes da casa sobre a volta de IPOs, conta Okura, mostrou que a grande maioria espera que aconteça mais para o final de 2026, no quarto trimestre. “Todo mundo acredita que a disputa presidencial será bem disputada e as preferências equilibradas”, disse ele.
Okura menciona que tem conversado com gestores e já sentiu indícios de alguma melhora do apetite por ativos de maior risco, com reversão da tendência de saques e a volta dos aportes, ainda que muito pequenos até agora.
“Os fundos brasileiros tiveram bom desempenho esse ano”, dze ele, ressaltando que muitos se beneficiaram da melhora da bolsa em novembro, que bateu uma série de recordes consecutivos.
Os fundos de ações e multimercados são os principais compradores de ações nas ofertas públicas, mas tiveram bilhões em saques, por conta dos juros a 15% ao ano.
Nos últimos 12 meses até novembro, os multimercados perderam R$ 95 bilhões e os de ações tiveram saques de R$ 61,5 bilhões, segundo a Associação Brasileira de Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima)
Fonte: Estadão