Os consumidores chineses têm sido frugais ao comprar produtos de uso diário, como escovas de dentes e xampus, uma tendência preocupante para um país que tenta se livrar dos efeitos da pandemia da covid-19.
Uma recuperação mais ampla das vendas no varejo na China neste ano mascarou parte dessa nova frugalidade, que na avaliação de economistas indica uma fraqueza na confiança do consumidor. O crescimento dos gastos se desacelerou recentemente, com o impulso da reabertura perdendo força.
A China tenta revitalizar sua economia ao incentivar mais gastos do consumidor, que esteve deprimido por quase três anos pelas duras restrições impostas para enfrentar a covid-19. Depois que essas restrições foram relaxadas, os chineses voltaram a viajar, sair para passeios e comer em restaurantes. Mas dentro de suas casas muitas pessoas continuam com os hábitos de forte contenção de gastos que adquiriram durante a pandemia.
Empresas que produzem artigos básicos de uso doméstico sentem o impacto. Os preços médios de venda de produtos de cuidados com a pele e para limpeza de cozinha e de iogurtes, escovas de dentes e fórmulas lácteas para bebês caíram na China durante o primeiro trimestre em termos anuais, segundo as empresas de consultoria Kantar Worldpanel e Bain & Co.
A pesquisa dessas empresas mostrou que os preços de maquiagens na China caíram quase 5%, em média, no início deste ano. Há pouco tempo, a Estée Lauder, que tem várias marcas de cosméticos de luxo, registrou um enfraquecimento nas vendas da categoria maquiagem na China.
Os consumidores que compram pela internet usam cada vez mais a plataforma de comércio eletrônico da PDD, uma empresa com ações negociadas nas bolsas de valores dos Estados Unidos. A PDD é conhecida por oferecer pechinchas e versões mais baratas de itens vendidos nos sites operados pelos grupos de comércio eletrônico JD.com e Alibaba.
A receita da PDD teve um salto de 58% no primeiro trimestre de 2023, enquanto suas duas maiores rivais registraram ganhos de menos de 5%. Para estimular as vendas, a JD.com ajustou sua estratégia de marketing para informar aos compradores que também oferece “preços baixos todos os dias” e compensará as pessoas que comprem certos produtos e depois encontrem os mesmos mais baratos em plataformas rivais.
O que está sendo chamado de “rebaixamento do consumo” na China tornou-se um tema popular em suas plataformas de redes sociais, com usuários que compartilham histórias de como adotaram estilos de vida mais frugais.
Sarah Wu, de 36 anos, postou no aplicativo de compras e rede social Xiaohongshu uma lista de itens que ela decidiu cortar ou reduzir durante a pandemia. Além de roupas e sapatos, Wu incluiu tiaras de pano (já tem bastante), batom (um é suficiente), leite, chás e outras bebidas (não compra, só bebe água), salgadinhos (come menos ou evita), comida para viagem (não pede), itens de uso diário (os mais baratos e devem ser armazenados adequadamente) e comer fora (uma vez por semana, com desconto para grupos).
Em uma entrevista, Wu disse que tem um imóvel financiado a pagar, mas não passa por nenhum stress financeiro. Ela contou que o que lhe “dá uma sensação de pressão” é ver e ler sobre a debilidade econômica da China e os cortes nas taxas de juro. Há pouco tempo Wu, que trabalha em uma empresa de internet em Wuhan, no centro da China, também adicionou à sua lista de cortes de gastos máscaras faciais, loções para o corpo e capas para celular. “Economizar dinheiro pode se tornar viciante; quanto mais você economiza, mais quer economizar”, disse ela.
Um executivo da Colgate-Palmolive disse recentemente que a demanda dos consumidores na China não cresceu tanto quanto a empresa esperava. “A China ainda mostra uma tendência muito discreta”, afirmou Mukul Deoras, presidente para a região Ásia-Pacífico da fabricante de pastas de dente e sabonetes, recentemente. Segundo ele, embora as pessoas tenham voltado a sair de casa e as lojas registrem mais tráfego de pedestres, o consumo ainda está baixo.
Na China, a Colgate vende produtos de higiene bucal da própria marca e da marca Darlie. Estima que mais de 500 milhões de pessoas na China usam produtos da Darlie — sua marca de baixo custo — pelo menos uma vez por ano.
Para atender os chineses mais preocupados em economizar, alguns fabricantes internacionais de bens de consumo têm lançado versões mais baratas desses produtos ou oferecido descontos.
A empresa holandesa de eletrônicos Philips começou a vender uma escova de dentes elétrica por US$ 28, enquanto sua série premium na China costuma custar de US$ 112 a US$ 280, segundo a Bain e a Kantar. Para efeito de comparação, as escovas de dentes elétricas da marca local Xiaomi custam apenas US$ 3,64. Um porta-voz da Philips disse que a empresa tem uma oferta abrangente de produtos de higiene bucal na China e em outros países, e suas escovas de dentes elétricas variam de versões básicas até as muito sofisticadas.
Fabricantes ocidentais de fórmulas lácteas para bebês, que já sentem o impacto da queda da taxa de natalidade da China, têm oferecido grandes descontos. No mês passado, um produto popular da Aptamil, da empresa francesa de alimentos Danone, foi listado com 40% de desconto na loja online da marca no site de comércio eletrônico para chineses Tmall, do Alibaba. A Similac, marca de propriedade da Abbott Laboratories, foi oferecida com um desconto semelhante em maio.
A Abbott informou que vai descontinuar suas operações de fórmulas lácteas para bebês na China e se concentrará no mercado de nutrição para adultos.
A China não deu auxílios em dinheiro para seus habitantes para incentivar gastos, como os EUA e outros países fizeram. Nos últimos três anos, a adoção de regras mais rígidas em setores que antes cresciam rapidamente, como os de educação, internet e imobiliário, mudaram a maneira de pensar das pessoas sobre suas perspectivas de emprego e prosperidade futura, o que afetou de forma negativa sua disposição de gastar.
“O rebaixamento no consumo da classe média está muito relacionado à pandemia”, disse Bo Zhuang, estrategista sênior da gestora internacional de investimentos Loomis Sayles. Também contribuem para a queda no consumo a redução das vagas de emprego nos setores de internet, cujos trabalhadores costumavam ter rendas mais altas, e de serviços, assim como o número de pequenas empresas que fecharam nos últimos anos. Zhuang acredita que para muitos cidadãos chineses comuns isso tudo pode resultar em “cicatrizes permanentes da covid”.
Na China, tradicionalmente, são as gerações mais novas que alimentam o consumo, mas o desemprego entre os jovens atingiu a taxa recorde 21,3% em junho. Segundo Li-gang Liu, chefe de análise econômica para a região Ásia-Pacífico do Citi Global Wealth Investments, os jovens chineses, que costumavam economizar menos, hoje enfrentam problemas significativos — e têm se tornado mais cautelosos como consequência.
Jennifer Dong, de 27 anos, trabalha no setor de tecnologia na cidade de Changsha, no centro da China, e está entre esses jovens. Depois de terminar a faculdade, ela conseguiu rapidamente um emprego que lhe pagava o equivalente a US$ 2.766 por mês e contou que não pensava muito em economizar. Depois, Dong foi trabalhar para uma startup, mas neste ano passou a ter medo de que a empresa falisse. Ela começou a procurar emprego e há pouco tempo encontrou uma vaga por um salário inferior ao que costumava ganhar.
Dong disse que se tornou mais consciente sobre seus gastos porque ela e o namorado tem contas e dois financiamentos de imóveis para pagar. “Antes, se gostávamos de uma coisa, comprávamos”, contou Dong. “Agora, pensamos se isso é algo realmente necessário e também comparamos preços de itens essenciais em diferentes supermercados e na internet.”
Fonte: Valor Econômico