Três pontos devem dominar a reunião de março do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, que começa hoje: a mudança na sinalização futura para a taxa de juros, as surpresas positivas na atividade econômica e o comportamento dúbio da inflação de serviços, que ora parece melhor, ora pior.
Membros do comitê deram várias indicações de que pretendem discutir ativamente o fim da sinalização de cortes de juros de 0,5 ponto percentual para as “próximas reuniões”. A preocupação de todos eles, aparentemente, é evitar que a reforma da sinalização seja entendida pelo mercado como uma mudança para pior na leitura do BC do cenário inflacionário.
Se decidirem que é hora de mudar a sinalização, haverá duas oportunidades para comunicar essa decisão. Uma delas é no comunicado que sai amanhã no início da noite. O BC tem dito que coloca nesse comunicado tudo o que é consensual entre os seus membros, o que, em tese, poderia incluir sinalização futuras de política monetária.
O lado negativo de informar a reforma da sinalização para os juros no comunicado é que esse documento é mais curto, o que significa que o BC não tem muito espaço para das explicações suficientes para evitar solavancos no mercado.
Outra possibilidade é o Copom deixar eventuais mudanças na sinalização para a ata da reunião, que sai na terça-feira que vem. O inconveniente dessa estratégia é que o Copom poderia provocar volatilidade nos mercados. Se o fim da sinalização de cortes não vier no comunicado, o mercado pode achar que o BC não mudou a estratégia – e , na semana que vem, descobrir que não é bem assim.
É provável que eventuais mudanças na comunicação sejam coerentes com o que disse o diretor de política econômica do BC, Diogo Guillen, há algumas semanas: a sinalização para os juros é algo diferente da decisão dos juros em si.
Segundo ele, o Copom pode caminhar um mesmo caminho com a taxa básica de juros mesmo que reforme a sinalização de cortes nas duas próximas reuniões.
Outro ponto que vai merecer muita atenção do mercado é a leitura que o BC vai fazer de um conjunto de indicadores recentes que mostram crescimento econômico mais forte do que o esperado.
Um aspecto a considerar é que esse maior dinamismo da economia não chega a ser, exatamente, uma grande surpresa para o Copom. O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, foi um dos primeiros a levantar a hipótese de um crescimento superior a 2% neste ano.
Isso não quer dizer, necessariamente, que o próprio Banco Central tenha sido, de alguma forma, surpreendido. Mas, provavelmente, terá uma leitura um pouco mais serena dos dados do que o mercado financeiro, que ficou sob forte pressão quando saíram indicadores mais fortes em serviços, comércio e mercado de trabalho.
A tônica do Banco Central tem sido fazer uma leitura mais cuidadosa dos dados, reagindo com cautela e parcimônia às novidades. O discurso oficial é que, depois da pandemia, as correlações entre indicadores econômicos quebraram os seus padrões históricos.
No fim das contas, por mais que a atividade econômica esteja mais forte, o que importa é o que isso representa para a inflação. O relevante é o grau de ociosidade da economia. Essa é uma variável que os economistas não conseguem medir diretamente, apenas estimar de forma indireta.
Diante de todas as incertezas para medir qual é exatamente, o grau de ociosidade da economia, o Copom vem olhando também a inflação corrente para checar se os preços estão se comportando da forma prevista.
E isso leva ao terceiro ponto que será muito importante nessa reunião do Copom: o comportamento dos núcleos de inflação, em especial a chamada inflação subjacente de serviços. Os indicadores mais recentes têm mostrado sinais contraditórios.
Entre dezembro e meados de fevereiro, a inflação subjacente de serviços veio mais forte do que o esperado, alimentando visões mais preocupadas de parte dos analistas de que esteja refletindo o grau de aquecimento da economia, em particular do mercado de trabalho. Já o dado fechado de fevereiro veio mais baixo, apoiando o argumento dos que acham que a pressão foi momentânea, em virtude da mudança da sazonalidade dos reajustes dos serviços depois da pandemia.
O Banco Central disse que está investigando essas relações entre o mercado de trabalho e inflação de serviços, mas não deu até agora uma leitura definitiva. Os estudos estão cada vez mais aprofundados, segundo Guillen, olhando por exemplo cada segmento dos serviços. É possível que o Copom dê mais detalhes sobre como evoluiu sua visão sobre a inflação de serviços até a divulgação do Relatório de Inflação, na quinta-feira da semana que vem.
Fonte: Valor Econômico
