O IPCA de setembro trouxe boas notícias sobre a inflação, com alívio importante na alta de preços dos serviços mais sensíveis à demanda e dos bens industriais. Os juros elevados, na casa de 10%, descontada a inflação, e o dólar mais fraco mostram efeitos mais claros sobre a dinâmica inflacionária. Os núcleos, que buscam reduzir ou eliminar a influência dos itens mais voláteis, também subiram pouco, e os aumentos de preços foram menos disseminados. Além disso, as cotações de alimentos tiveram mais uma queda.
O indicador que baliza o regime de metas de inflação subiu 0,48% no mês passado, após ter caído 0,11% em agosto, mas ficou abaixo do 0,52% do consenso do mercado. O índice de difusão, que mostra o percentual de itens em alta no mês, foi de 52,25%, inferior aos 56,76% do mês anterior e dos 56,5% de setembro de 2024, segundo números da MCM Consultores Associados. Um dos principais motivos para a aceleração do IPCA para 0,48% foi o aumento de 10,3% de energia elétrica, pelo impacto da devolução do bônus de Itaipu, como aponta a XP. Em agosto, energia havia recuado 4,21%. Em 12 meses, a variação do IPCA teve uma pequena alta, de 5,13% para 5,17%, acima da meta de 3% e mesmo do teto da banda de tolerância, de 4,5%.
Um dos sinais mais benignos do IPCA em setembro foi o aumento de 0,03% dos serviços mais sensíveis à demanda, que tinham subido 0,34% em agosto. É um reflexo do impacto da política monetária apertada, que tem levado à desaceleração da economia. A alta de apenas 0,1% de alimentação fora do domicílio contribuiu para o bom resultado desse grupo de serviços. Em 12 meses, a variação desses preços ainda incomoda – ficou em 6,76% até setembro, um pouco acima do 6,74% até agosto. Mas esses serviços tiveram uma perda de fôlego numa métrica acompanhada para se analisar comportamento da inflação no curto prazo: a média de três meses anualizada e com ajuste sazonal recuou de 5,8% em agosto para 4,8% em setembro. Os números são todos da MCM.
Os preços dos bens industriais também tiveram alta modesta no mês passado, de apenas 0,05%, após o 0,17% de agosto. O resultado é efeito especialmente do dólar mais fraco. Em 12 meses, a variação desse grupo passou de 3,33% para 3,22%.
Já as cotações da alimentação no domicilio recuaram pelo quarto mês seguido. Em setembro, a queda foi de 0,41%, um pouco menos acentuada que a de 0,83% de agosto. Em 12 meses, houve uma desaceleração importante, de 7,01% para 5,97%. A valorização do câmbio e a safra recorde contribuem para explicar o desempenho mais favorável dos preços de alimentos. No quarto trimestre, porém, a expectativa é de que essas cotações deverão voltar a subir, como avaliam os economistas da XP.
Por fim, a média dos cinco núcleos acompanhados mais de perto pelo Banco Central (BC) subiu apenas 0,19% em setembro, após avançar 0,3% no mês anterior. Em 12 meses, a variação acumulada passou de 5,12% para 5,09%.
A possibilidade de que o IPCA termine o ano perto do teto da banda de tolerância da meta, de 4,5%, tem crescido. O Bradesco estima que o indicador ficará nesse nível em 2025. A XP, por sua vez, revisou nesta quinta-feira a sua projeção de 4,8% para 4,7%. A atividade mais fraca, decorrente do efeito dos juros altos, e a valorização do câmbio colaboram para um IPCA mais baixo neste ano, embora ainda distante da meta de 3%. Por enquanto, a avaliação dominante é que o BC começará a cortar a Selic, hoje em 15% ao ano, apenas em 2026. O comportamento mais benigno da inflação é um fator que pode eventualmente levar a autoridade monetária a antecipar o ciclo de queda da taxa, em especial se as expectativas para o IPCA dos próximos anos também seguirem em queda.
Fonte: Valor Econômico