Por Alex Ribeiro, Valor — São Paulo
23/06/2023 10h05 Atualizado há 43 minutos
O comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, divulgado anteontem, contém algumas ambiguidades que dificultam a leitura do mercado financeiro sobre quando, exatamente, pode começar um ciclo de corte de juros — se em agosto ou depois.
Num parágrafo, o Copom introduz uma palavra – “parcimônia” – que no passado foi usada para sinalizar movimentos na taxa básica de juro de 0,25 ponto percentual. Ela indica que o BC está contemplando baixar o juro em agosto, pois está até discutindo o ritmo. Mas, no mesmo parágrafo, o colegiado diz que a estratégia de manutenção dos juros altos “tem se mostrado adequada”. Ou seja, parece mostrar que vai ficar tudo igual nos juros.
Pelo histórico da comunicação do Banco Central, não há muita dúvida que a palavra “parcimônia” procura incutir na cabeça do mercado que o Copom está se aproximando de um movimento de queda da taxa de juro. A palavra, inclusive, foi usada pelo presidente do Banco Central às vésperas da reunião do Copom.
Em um evento com empresários do varejo, Campos Neto disse que o Copom “precisa fazer as coisas com paciência e parcimônia”. Segundo ele, “se o processo de convergência da inflação [para a meta] for interrompido, o custo é muito maior”.
O presidente do Banco Central usou a frase ao discutir as implicações de um cenário que recentemente se tornou mais favorável, com “crescimento sendo revisado para cima e com inflação sendo reduzida par abaixo”.
Na sequência dessa fala, ele parecia que caminhava para dizer que o Copom iria cortar os juros, mas interrompeu a frase no meio: “Isso abre espaço, obviamente, para ter uma política…”, disse. E continuou na sequência: “Eu sou um voto de nove [membros do Copom], não poso adiantar nada do que vai ser feito. Mas o que [posso] dizer é que a gente tem que fazer as coisas com paciência e com parcimônia.”
A palavra “parcimônia” foi usada pelo Banco Central em pelo menos três momentos na história para indicar o ritmo de baixa da Selic. Uma delas foi em fins de 2006, quando o BC, então chefiado por Henrique Meirelles, diminuiu o ritmo de alta de juros de 0,5 ponto percentual para 0,25 ponto por reunião.
Alexandre Tombini, à frente do BC, também usava essa palavra para indicar movimentos de 0,25 ponto percentual. Fez isso no final do ciclo de baixa da Selic de 2012 e, de novo, no fim do ciclo de alta, em 2014. Já na gestão Ilan Goldfajn, a palavra preferida para indicar movimentos de 0,25 ponto percentual era “moderada”, se referindo à flexibilização.
Pelo histórico e pelo que disse Campos Neto, portanto, não há muita dúvida que o Copom já está discutindo o ritmo de uma eventual baixa de juros, que provavelmente seria de 0,25 ponto percentual. E, ao tornar isso público, convida o mercado a fazer a mesma coisa.
O que há de ambíguo na sinalização é que o Copom diz logo em seguida, no mesmo parágrafo de seu comunicado, que “avalia que a estratégia de manutenção da taxa básica de juros por período prolongado tem se mostrado adequada para assegurar a convergência da inflação”.
Alguns analistas acreditam que houve um enfraquecimento da sinalização de manter os juros, mas esse é um assunto aberto ao debate. Até maio, o Copom dizia que “o comitê segue vigilante, avaliando se a estratégia de manutenção da taxa básica de juros por período prolongado será capaz de assegurar a convergência da inflação”.
Talvez a ata do Copom, na semana que vem, esclareça mais a mensagem. À primeira vista, parece que o comitê reformulou a frase apenas para tirar a ameaça de subir o juro. A alteração retira a simetria dos cenários alternativos para a Selic. Ou seja, antes, na hipótese de não manter a Selic inalterada, havia chances iguais, porém menores, tanto de alta quando de baixa de juro. Agora, há uma assimetria, para baixo.
Mas não parece que, pelo menos no cenário para o futuro traçado na reunião do Copom, o comitê tenha abandonado a manutenção de juros como estratégia principal. Pelo menos é o que diz o pretérito perfeito composto “tem se mostrado”, que é usado para indicar uma ação repetida no passado que se prolonga até o momento atual.
Fonte: Valor Econômico