Por Lucianne Carneiro e Marta Watanabe, Valor — Rio e São Paulo
11/08/2022 14h20 Atualizado há 11 horas
O desempenho do volume de serviços prestados no país em junho, com alta pelo segundo mês consecutivo, reforça a percepção dos economistas de que a atividade econômica se expandiu no segundo trimestre do ano, beneficiada por melhora no emprego e estímulos fiscais extraordinários. Com destaque em transportes e serviços profissionais, o avanço dos serviços também foi favorecido pelo fortalecimento das atividades presenciais no pós-pandemia.
Para a segunda metade deste ano é esperada uma desaceleração, sob efeito de uma inflação ainda relativamente alta e do aperto monetário.
O volume de serviços prestados no país avançou 0,7% em junho, frente a maio, com ajuste sazonal, segundo a Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) divulgada nesta quinta-feira (11) pelo IBGE. Em maio, a variação foi de 0,4% (após revisão do dado inicial como alta de 0,9%).
De março a junho a atividade acumulou alta de 2,2%, com queda de 0,2% em abril. A alta na série com ajuste sazonal foi maior que a mediana de alta de 0,4% das estimativas de 25 consultorias e instituições financeiras ouvidas pelo Valor Data. As projeções iam de queda de 0,6% a alta de 1%.
A alta repara parte do desempenho mais fraco da indústria (queda de 0,4% em junho em relação a maio) e varejo (menos 1,4% no conceito restrito, que exclui automóveis e material de construção).
Quatro das cinco atividades acompanhadas pela pesquisa tiveram alta em junho comparadas a maio. Os destaques foram transportes, serviços auxiliares e correio (0,6%) e serviços profissionais, administrativos e complementares (0,7%), ambos com a segunda alta seguida. O segmento de transporte já está 16,9% acima do patamar pré-pandemia.
Rodrigo Lobo, gerente da PMS, explica que o setor foi beneficiado pelo aumento do transporte de cargas, com o avanço do e-commerce. “Posteriormente, a recuperação do transporte de passageiros ajudou a impulsionar a atividade.”
Os serviços prestados às famílias são a única das cinco atividades de serviços a operarem abaixo do nível pré-pandemia, com volume em junho 6,1% abaixo do de fevereiro de 2020. A diferença vem caindo. Em janeiro, essa categoria estava 13,8% abaixo do pré-pandemia.
A inflação tem jogado contra a recuperação dos serviços às famílias, diz Lobo. A pressão de preços, explica, traz efeitos diretos, como em transporte aéreo. “Mas tem um efeito indireto, que são os ‘trade offs’, as escolhas. Se o preço do combustível subiu e o indivíduo usa para ir ao trabalho, ele mantém o consumo de combustíveis, mas retira da cesta de consumo supérfluos, como comer fora.”
Apesar do efeito da inflação, a PMS divulgada nesta quit reforça a percepção de crescimento do PIB de abril a junho. Para Lucas Maynard, economista do Santander, o setor de serviços deve impulsionar o PIB do segundo trimestre, de forma semelhante ao que aconteceu de janeiro a março. Indústria e comércio também devem ter bom desempenho relativo, influenciados também por herança estatística favorável na passagem do primeiro para o segundo trimestre, além de um contexto favorecido por estímulos fiscais.
O banco projeta elevação de 1% no PIB de abril a junho contra os três meses anteriores, na série com ajuste sazonal. Para o segundo semestre, porém, diz, a expectativa é de que haja efeito mais evidente do cenário macroeconômico, com a alta de juros pesando no desempenho geral. Para 2022, a estimativa do banco é de alta de 1,9%.
Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa, destaca o comportamento dos “outros serviços prestados às famílias”, que avançaram 24,5% em junho contra igual mês de 2021, mostrando estabilidade frente ao mês anterior. Tal agregação é a mais relevante da pesquisa de serviços para o PIB, aponta. Ele explica que a projeção para o PIB do segundo trimestre da corretora segue em 0,6%, na margem. “Tinha ganhado contornos baixistas após os resultados anteriores de indústria e comércio, que foram anulados pela PMS.” Para o ano a estimativa é de alta de 1% no PIB.
Segundo o IBGE, ao fim do primeiro semestre de 2022 o setor de serviços já operava em patamar 7,5% superior ao do pré-pandemia, situação bem mais favorável que a do comércio (+1,6%) e a da indústria (-1,5%). Para Lobo, a distância pode ser explicada pelo fato de o setor de serviços estar sendo impulsionado principalmente pela demanda de empresas, enquanto comércio e indústria são mais correlacionados a juros e inflação. “E no mercado de trabalho, ainda que tenha mostrado reação nos últimos meses, vemos que a massa de rendimentos não tem evoluído de maneira tão satisfatória.”
Para Rodolpho Tobler, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), o desempenho dos serviços deve ter sido levemente melhor que o da indústria e comércio no PIB do segundo trimestre, sob influência de abertura da economia, antecipação de 13 para aposentados e liberação do FGTS. Por enquanto, o Ibre espera 0,8% de alta no PIB do segundo trimestre contra os três meses anteriores, com ajuste sazonal.
No segundo semestre, diz Tobler, os serviços devem sofrer efeito maior dos juros e da inflação ainda alta no acumulado, principalmente no último trimestre. O Auxílio Brasil de R$ 600 deve amenizar os efeitos, mas como é focado em baixa renda, tem impacto restrito. No fim do ano deixará de ser injetado na economia o 13 antecipado aos aposentados, lembra.
Fonte: Valor Econômico


