Por Tom Fairless, Dow Jones — Frankfurt
25/01/2023 12h15 Atualizado há 12 horas
A Alemanha vai crescer neste ano e pode até escapar de uma recessão leve no curto prazo, disse nesta quarta-feira (25) o governo alemão, na mais recente indicação de que as perspectivas de crescimento na Europa melhoraram, apesar do choque da invasão da Ucrânia pela Rússia.
A maior economia da Europa deve se expandir 0,2% neste ano, segundo o relatório econômico anual do Ministério da Economia. No fim de 2022, a previsão era de uma contração de 0,4%.
Essa revisão marca uma virada para a Alemanha meses após alguns economistas alertarem para o risco de o país registrar sua pior queda desde a Segunda Guerra Mundial.
“Ainda não saímos dessa, mas conseguimos evitar os piores cenários”, disse o ministro da Economia alemão, Robert Habeck. Ele lembrou que alguns cenários apontavam a possibilidade de uma contração de 12% na produção depois do ataque da Rússia à Ucrânia e da crise de energia que ele causou.
Habeck afirmou que a recessão que seu Ministério previa para o fim de 2022 e o primeiro trimestre deste ano “será mais curta e branda, se chegar a acontecer”.
Um forte aumento nos preços da energia depois da invasão e a decisão da Rússia de praticamente parar de fornecer gás natural à Europa no último trimestre provocou temores de que as autoridades alemãs precisassem racionar o combustível no inverno, o que poderia acarretar o fechamento de boa parte de sua indústria.
Mas um inverno menos rigoroso até o momento, os gastos pesados do governo para proteger empresas e famílias dos preços altos e medidas de economia de energia ajudaram a atenuar o golpe.
Isso ajudou a levar as reservas de gás do país para níveis recordes nos últimos meses, o que, por sua vez, ajudou a reduzir os preços da energia e aumentar a confiança dos consumidores e das empresas.
Segundo Jim Reid, estrategista do Deutsche Bank, as reservas de gás estão em seu nível mais alto para esta época do ano em toda a União Europeia. “Mesmo que voltemos a um tempo frio persistente neste e no próximo inverno, os níveis de armazenamento devem ser adequados para atravessarmos o próximo inverno também.”
As grandes indústrias exportadoras da Alemanha mantiveram a produção estável nos últimos meses, na contramão das previsões de forte declínio, e hoje estão em boa posição para se beneficiarem da reabertura econômica na China, o maior parceiro comercial do país. A confiança crescente sobre o ano à frente ajudou a elevar um índice de sentimento empresarial, divulgado nesta quarta-feira (25), para seu nível mais alto desde o terceiro trimestre.
A Alemanha pode ter evitado uma crise, mas ainda assim enfrenta obstáculos econômicos significativos, que sugerem a probabilidade de um longo período de baixo crescimento.
O euro em recuperação e a provável desaceleração de economias como a dos EUA parecem a ponto de solapar a demanda pelas exportações do país. As encomendas industriais estão mais fracas desde o início de 2022. Segundo a agência federal de estatísticas, as exportações alemãs para países de fora da UE caíram quase 10% em dezembro em relação a novembro.
O governo alemão introduziu pacotes de auxílio para famílias e empresas com gastos totais equivalentes a cerca de 8% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2022, de acordo com o ING. Mas, embora tenha se recuperado um pouco nos últimos meses, a confiança do consumidor alemão segue próxima de seus menores níveis históricos e os preços elevados de energia continuam a pesar no poder de compra das famílias. Dados do Commerzbank apontam que o setor varejista da Alemanha tem vendido menos, em termos de preços ajustados, desde o segundo trimestre.
“Uma recessão pode muito bem ter sido evitada, mas acreditamos que a economia ficará, na melhor das hipóteses, estagnada no primeiro semestre de 2023 e só crescerá muito lentamente a partir daí”, disse a economista Franziska Palmas, da Capital Economics.
Enquanto isso, é provável que o Banco Central Europeu (BCE) eleve o juro em pelo menos mais um ponto percentual nos próximos meses para conter a alta da inflação. Isso aumentará os custos do crédito imobiliário e de outros empréstimos, o que deve afetar os gastos e o crescimento no fim do ano. Para analistas, os preços do gás permanecerão muito mais altos na Europa do que em outros países e prejudicarão a competitividade das indústrias que fazem uso intensivo de energia.
O economista do ING Carsten Brzeski disse que a economia da Alemanha só voltou ao tamanho que tinha antes da pandemia de covid-19 no terceiro trimestre de 2022, e a produção industrial ainda está cerca de 5% abaixo do que era. Para ele, a economia alemã enfrenta profundos desafios estruturais, entre eles uma transição custosa para fontes de energia renováveis, mudanças nas cadeias mundiais de fornecimento e a escassez cada vez maior de trabalhadores qualificados.
“Mesmo se for administrada da maneira mais otimizada possível, levará alguns anos até que a economia alemã possa realmente prosperar de novo”, disse Brzeski.
Fonte: Valor Econômico
