Por Marcelo Osakabe — De São Paulo
20/09/2022 05h01 Atualizado há 5 horas
A reorganização das cadeias globais de produção, impulsionada pela invasão da Ucrânia pela Rússia e pelo acirramento da disputa entre os Estados Unidos e a China, abriu uma oportunidade para o Brasil aprofundar sua inserção no comércio mundial. Aproveitar bem essa chance, no entanto, implica também desafios para a infraestrutura brasileira.
Para competir por esse investimento com os demais países, aproveitar o impulso para desenvolver sua indústria e também promover gastos em áreas de cunho social, como no saneamento, o país precisa repensar a forma como investe. No atual quadro institucional, em que o teto de gastos fez do investimento do governo a variável de ajuste do quadro fiscal brasileiro, o atual patamar de gastos não cobre hoje nem mesmo a depreciação da infraestrutura que existe, lembra o presidente da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib), Venilton Tadini. Tudo isso em um momento em que o investimento privado cresce, na esteira do programa de concessões e privatizações do governo, mas ainda abaixo de patamares vistos em anos anteriores.
Divulgado no fim de agosto, o Projeto de Lei Orçamentária Anual (Ploa) para 2023 prevê R$ 22,4 bilhões para investimentos federais, valor 50,4% menor do que o autorizado neste ano e também o menor em 14 anos.
Tadini defende uma maior presença do Estado nos investimentos, mas aproveitando as melhorias vistas nos últimos anos em termos de estruturação de projetos, financiamento e governança. Tudo isso dentro de uma estratégia de desenvolvimento, uma política industrial que foque em setores-chave para o desenvolvimento do país. Política industrial “não é ideia de tupiniquim, é só ver o programa de infraestrutura e de semicondutores, do [presidente dos EUA, Joe] Biden”, diz.
A questão do financiamento, no entanto, não é o único gargalo que o país enfrenta, lembra Karla Bertocco Trindade, ex-presidente da Sabesp e hoje sócia e chefe de infraestrutura e saneamento na Mauá Capital.
Com passagem pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Karla Trindade lembra que a cadeia de suprimentos de setores como saneamento e rodovias é bastante frágil e precisa de incentivos para fazer frente à expectativa de vultosos investimentos nos próximos anos. Em outra frente, é preciso encontrar formas de atrair novos players para os certames, em um momento em que boa parte dos ativos mais atraentes já foi cedida, ao passo que pesos pesados do setor começam a demonstrar pouco apetite, dado a forte alavancagem a que se submeteram nos últimos anos.
De olho na baixa capacidade de investimento do Estado, no entanto, Karla Trindade avalia que o governo deveria limitar a sua atuação ao que fazem hoje os organismos multilaterais, como o Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). “Acho que ele deveria usar seu dinheiro da mesma forma que os organismos multilaterais usam, que é criar uma alavanca, um catalisador para que outros agentes venham financiar”, diz.
Fonte: Valor Econômico