Evitar a recuperação da Raízen, com mais de R$ 55 bilhões em dívidas, é o objetivo comum de acionistas e credores da maior produtora mundial de etanol de cana-de-açúcar, mas o caminho para chegar a esse propósito tem encontrado obstáculos. Duas propostas de recapitalização da empresa estão na mesa, mas elas colocam em lados opostos a Cosan e a Shell, principais acionistas da empresa, com 44% de participação. Esse impasse vem atrasando uma definição e a semana começa com novas conversas em São Paulo e Londres.
Pelo lado da Shell, a Raízen é sua maior aposta no segmento de energia limpa. Portanto, os ingleses acenam com uma injeção de US$ 3,5 bilhões em recursos novos na companhia. Também querem que a empresa mantenha sob o mesmo guarda-chuva os negócios de produção de etanol e distribuição de combustível, pilares importantes para a marca. A Raízen tem cerca de 9 mil postos de combustíveis da marca Shell no Brasil, Paraguai e Argentina. As ações da empresa na B3 caíram 62% nos últimos 12 meses e neste ano acumulam perdas de 19,7%, até fevereiro.
Pelo lado da Cosan e do BTG Pactual, banco que se tornou o maior acionista individual da Cosan, no ano passado, a ideia é diferente. A proposta é que a Raízen seja dividida em duas unidades distintas, uma de produção de etanol e outra de distribuição de combustíveis, e que ambas sejam listadas na Bolsa. A Cosan, que é controlada pelo empresário Rubens Ometto, através de um acordo de acionistas com o BTG, também injetaria capital novo, mas menos do que a Shell. No ano passado, a própria Cosan, com dívidas bilionárias, estruturou uma captação de pelo menos R$ 10 bilhões com participação do BTG Pactual e da gestora Perfin Infra.
Propostas distintas
A proposta é que Ometto coloque R$ 500 milhões e o BTG, através de fundos de investimento, injete mais R$ 1 bilhão. Se a cisão acontecer, o BTG tem interesse em assumir o controle da empresa de distribuição, segundo fontes que acompanham as conversas. No ano passado, a própria Cosan, com dívidas bilionárias, estruturou uma captação de pelo menos R$ 10 bilhões com participação do BTG Pactual (que se tornou seu maior acionistas) e da gestora Perfin Infra. Os credores, entre eles Bank of America, Citigroup, J.P. Morgan e Mitsubishi UFJ Financial Group, converteriam cerca de 30% de seus títulos em ações.
Não bastasse os principais acionistas com propostas divergentes, os próprios credores também vem pressionando a Cosan e a Shell para que injetem mais dinheiro na Raízen. Numa carta enviada a ambas, eles pedem um aporte de capital de R$ 25 bilhões, valor que consideram trazer equilíbrio financeiro para as operações da Raízen. Eles rejeitaram o aporte de R$ 5 bilhões oferecido pelos principais acionistas.
A situação é tão delicada que até o presidente Lula fez uma reunião com acionistas da Raízen e executivos das empresas para entender a situação da empresa e buscar uma solução. O etanol brasileiro é dos trunfos do país na transição para egernias mais limpas.
Caminho incerto e complexo
Daniel Teles especialista e sócio da Valor Investimentos disse que o mercado acompanha as negociações e as tentativas de aporte para salvar a companhia. Mas ainda não existe um caminho definido.
— A injeção de capital dos controladores deve ser o principal socorro. Mas fica complicado dizer se vai ter oferta de ações, e eu acho que pouco provável, essa estratégia de divisão — afirmou o especialista.
Na avaliação dos acionistas do Bradesco BBI, a divisão da empresa pode avançar se for confirmada. Mas ainda existem dúvidas sobre quais serão as proporções de conversão de dívida em capital e como será o plano de virada operacional para o negócio de açúcar e etanol da Raízen, hoje em situação mais frágil. O JPMorgan avaliou que a Raízen caminha para uma “reestruturação complexa”.
Uma recuperação judicial da Raízen, segundo especialistas, atrapalha os planos da Shell no segmento de energia limpa, operação crucial para a empresa, especialmente no Brasil, um dos seus mercados mais importantes. A Raízen vem sendo pressionada por juros elevados, safras abaixo do esperado e investimentos agressivos, o que levou a rebaixamentos de crédito e quedas nos títulos da companhia. A companhia registrou um prejuízo líquido de R$15,6 bilhões no terceiro trimestre, do ano passado, e em meados de fevereiro, alertou para uma “incerteza relevante” sobre sua a capacidade de continuar operando.
A Shell informou que como acionista, reconhece os significativos desafios financeiros que a Raízen enfrenta atualmente e a seriedade da situação. “A Shell continua trabalhando com as equipes de liderança da Raízen e da Cosan para apoiar a redução do endividamento da Raízen. Nossa prioridade é garantir que a Raízen identifique e busque soluções definitivas para a joint venture, os acionistas e as demais partes interessadas da empresa”, explicou em nota. Procuradas, a Cosan, o BTG e a Raízen não comentaram
Fonte: O Globo
