5 Feb 2024
JENNE ANDRADE
A primeira reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) em 2024 ocorreu na última quarta-feira e o colegiado do Banco Central decidiu por um corte de 0,5 ponto porcentual na taxa básica de juros Selic, que recuou ao patamar de 11,25% ao ano.
José Cataldo, superintendente de research da Ágora Investimentos, avalia que a autoridade monetária seguirá com cortes da mesma magnitude em pelo menos mais três encontros – até o final do ano, sua expectativa é de que a Selic esteja em 9,5% ao ano – projeção mais elevada do que a média de mercado, de 9% segundo consenso expresso no Boletim Focus, do BC.
Por trás dos cálculos mais conservadores, estão os riscos fiscais, com o anúncio da nova política industrial e um déficit fiscal de R$ 230,5 bi no primeiro ano do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), além de preocupações com a inflação.
A renda fixa deve seguir protagonista mesmo em meio ao ciclo de queda da Selic, diz Cataldo, que vê os títulos isentos de imposto de renda (IR) e atrelados à inflação como grandes oportunidades neste início de ano. A renda variável também está interessante, mas exige maior seletividade.
Veja a seguir os principais trechos da entrevista:
O Copom cortou a Selic para 11,25%. Qual sua leitura sobre o comunicado?
O comunicado não trouxe muita novidade, o Banco Central manteve a frase que diz que vai continuar cortando os juros na mesma magnitude. Isso quer dizer, no final das contas, que no início de maio a Selic deve estar próxima de 10%. E foi uma decisão unânime. O balanço de riscos para a inflação também se manteve inalterado. De uma maneira geral, os preços são os pontos mais relevantes.
Apesar de o BC sugerir manter o mesmo ritmo, existe espaço para cortes maiores?
Tanto o cenário interno quanto lá fora não justificam um corte maior do que meio ponto porcentual. Temos uma expectativa que talvez seja mais alta do que a média de mercado para a Selic no final de 2024. Vemos a Selic a 9,5%. Somos conservadores nesses movimentos.
Quais riscos impedem o Banco Central de acelerar o ciclo de queda da Selic?
Se for olhar o cenário interno, o Produto Interno Bruto (PIB) vem mostrando fadiga desde o 3º trimestre de 2023. Entendemos que isso vai se estender para o primeiro semestre de 2024. Hoje, não temos uma preocupação tão grande com a inflação, como tivemos no final do ano passado, mas temos uma visão conservadora. Não vemos um impacto grande de inflação de alimentos em 2024. Contudo, temos cautela com a inflação de serviços, que deve seguir no radar. A nossa projeção do IPCA para 2024 é de 3,9%.
E no cenário externo?
O consenso da Bloomberg mostra uma expectativa do PIB dos EUA para 2024 em 1,3%. Ainda que isso não signifique uma recessão, temos uma expectativa de que, mais para frente, os EUA entrem em um cenário mais apertado. A inflação americana ainda está rodando acima da meta de 2% – a inflação foi de 3,2% em 2023. Portanto, a única razão para cortes agressivos dos juros nos Estados Unidos seria uma forte reversão da atividade, levando a economia a um ou dois trimestres de crescimento negativo. Enxergamos que não é possível termos um período de cortes mais agressivos de juros, com inflação rodando acima da meta, sem uma recessão.
Como fica a renda fixa nesse cenário?
A renda fixa ainda deve ser uma alocação relevante em 2024, principalmente em instrumentos isentos, incentivados. . Produtos indexados ao IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo, usado para mensurar a inflação), com investimento superior a quatro anos, possuem taxas oportunas de carregamento a longo prazo. Tem os títulos bancários, emissão privada e pública, que remuneram IPCA mais 5% e permitem uma proteção do patrimônio do investidor quanto aos riscos inflacionários. As posições prefixadas para 2026 também mostram alguma atratividade. Os títulos com vencimento de curto e médio prazos apresentam taxas superiores ao CDI, em torno de 10% ao ano. Para aquele que é muito conservador, os pós-fixados também acabam sendo ainda interessantes, garantindo um retorno real acumulado na Selic.
Quais são as oportunidades na Bolsa?
Temos destacado histórias de empresas pouco endividadas, desalavancadas, com boa execução e boas pagadoras de dividendos. Entretanto, essas são empresas que geralmente têm um upside menor. Já dentro das histórias de crescimento, onde estão os maiores potenciais de valorização, gostamos de consumo discricionário, small caps e algumas blue chips. Temos projeção para o Ibovespa de 157 mil pontos até o final do ano. Um upside basicamente de 20%, que não é nem tão grande se considerarmos uma correção pela renda fixa. •
Fonte: O Estado de S. Paulo