Se for levada ao pé da letra, a justificativa do presidente do Federal Reserve (Fed), Jerome Powell, para o início anormalmente agressivo do ciclo de cortes dos juros pelo banco central americano reforça a crença do mercado de que nunca saímos, nem é provável que saiamos em breve, do regime de política monetária que floresceu antes da crise financeira global de 2008.
Esse regime de ampla liquidez proporcionada pelo banco central aos mercados agora serve como uma apólice de seguro contra uma gama cada vez maior de riscos.
É relativamente incomum que o Fed inicie um ciclo de cortes com uma redução de 0,5 ponto porcentual. É ainda mais incomum isso acontecer quando, segundo Powell, a economia está “em um bom lugar”, o Fed tem uma “confiança crescente de que a força no mercado de trabalho poderá ser mantida” e a política fiscal mantida é tão consistentemente frouxa.
Não deveria ser nenhuma surpresa que muitos motivos econômicos tenham sido apresentados para o início agressivo do ciclo do Fed. Eles vão de “missão cumprida” na batalha contra a inflação a um risco desconfortavelmente alto de uma recessão. Outras razões citadas incluem o contágio de problemas das economias chinesa e europeia e taxas de juros anormalmente altas após levar em conta a inflação.
Razões não econômicas também foram sugeridas envolvendo a política antes das eleições presidenciais, temores de que escaladas nas tensões no Oriente Médio e/ou na Ucrânia venham a prejudicar a demanda global e até mesmo que o Fed esteja sendo intimidado pelos mercados, que acreditam que ele deve operar como um banco central de mandato único, concentrando-se apenas na parte “emprego máximo” de seu mandato duplo.
Tal especulação é natural diante da escala do corte recente, especialmente dadas as dissonâncias atualmente em andamento nos mercados, incluindo o contraste entre os múltiplos recordes do mercado de ações e as crescentes incertezas econômicas, políticas e geopolíticas; o enorme apetite por grandes emissões de novos bônus, apesar das preocupações com as dívidas elevadas dos setores privado e público; e a correlação historicamente incomum entre os bônus soberanos, os bônus de alto rendimento e o ouro, todos os quais têm registrado alta.
A primeira série de comentários de autoridades do Fed depois da reunião do Comitê de Mercado Aberto (Fomc) não aponta para uma justificativa uniforme para o corte agressivo. Em vez disso, teremos que esperar pelo anúncio de dados nas próximas semanas para avaliar, a posteriori, a justificativa do banco central. Se fosse obrigado a formar uma opinião, eu caracterizaria o corte como uma política de seguro do Fed contra um novo erro de política, desta vez sendo ele excessivamente restritivo por muito tempo, e a crença tanto do Fed como dos mercados de que o custo dessa política é muito baixo.
Visto em um contexto de longo prazo, esta é mais uma evolução no paradigma da dominância de liquidez ou o que alguns chamaram de financeirização da economia. Isso ficou evidente na hiperatividade no setor de ‘fábricas de crédito’ na véspera da crise financeira global de 2008, conforme detalhado em artigo que escrevi para o “Financial Times” em 2007.
Continuou com as intervenções maciças no mercado pelas autoridades monetárias, com apoio de liquidez para reduzir a probabilidade de uma desalavancagem desordenada dos balanços dos bancos privados. Isso reforçou a crença generalizada em uma “opção de venda do Fed” – a possibilidade de suporte aos mercados pelo banco central em tempos de volatilidade inquietante. E isso foi amplificado durante a pandemia de covid-19, quando o balanço do Fed inchou para US$ 9 trilhões, de US$ 1 trilhão antes da crise financeira, em meio a déficits orçamentários impressionantes. Isso ocorreu apesar da sequência recorde de 27 meses seguidos, até maio, de uma taxa de desemprego abaixo dos 4%.
O resultado de tudo isso foi que a liquidez separou os preços de mercado dos fatores econômicos, financeiros, geopolíticos e políticos tradicionais. De fato, o corte recente nos juros alimentou tendências comportamentais importantes que levam os mercados a acreditar que um amplo apoio de liquidez faz mais do que ajudá-los a navegar na realidade de um cenário incerto. Também serve para prevenir uma ampla gama de ameaças futuras.
Não admira que muitos tenham caracterizado a posição do Fed sobre os juros como uma “apólice de seguro”. Seu impacto benéfico vem com o compromisso habitual de um seguro generoso, que arrisca altos riscos morais e seleção adversa. Especificamente, os mercados interpretaram isso como um sinal de baixo risco de ressurgimento da inflação e de uma instabilidade financeira desordenada.
Apólices de seguro bem precificadas podem aumentar o bem-estar econômico de uma forma em que todos saem ganhando, o segurado, a seguradora e o sistema. Essa é a esperança da qual o bem-estar econômico agora depende em parte, e não é uma certeza absoluta. (Tradução de Mário Zamarian)
Mohamed El-Erian é presidente do Queens’ College, Cambridge, e consultor da Allianz e da Gramercy
Fonte: Valor Econômico
