Por Adriana Cotias — De São Paulo
17/10/2022 05h03 Atualizado há uma hora
É no mesmo endereço que já abrigou a Península, de Abilio Diniz, que a Oriz Partners, gestora de patrimônio liderada por Carlos Kawall, abriu suas portas na semana passada. “Infelizmente, não posso dizer que ele é o nosso primeiro cliente”, brinca o economista ao se despedir da reportagem após uma conversa com participação de integrantes da equipe. No 15º andar do Edifício San Paolo, no coração da Avenida Brigadeiro Faria Lima, já são 40 pessoas no time, boa parte vinda do Safra. “Eu nunca tinha tido um emprego na Faria Lima, se não fosse aqui, não teria aceitado.”
A engrenagem foi apadrinhada pela XP, sócia minoritária do projeto, que pretende ser um meio de caminho entre os “multi family offices”, que cuidam de fortunas familiares, e o private banking dos grandes grupos financeiros, além de incluir atividades de banco de investimentos. O mote é levar soluções olhando o patrimônio de forma integrada, atendendo empresários na pessoa física e na jurídica. A XP não tem aberto a fatia que vem aportando em novos negócios de gestão de riqueza, mas o que se comenta é que as participações oscilam entre 20% e 40%.
Com a parceria com a Oriz, a XP pretende repetir o feito do acordo selado com a WHG, de um grupo de executivos egresso do Credit Suisse, em que ficou com 49% do negócio. Num modelo também híbrido, que reúne aconselhamento financeiro para os ultrarricos, asset e uma DTVM, a companhia liderada por Marco Abrahão amealhou uma custódia de mais de R$ 20 bilhões em 18 meses de atividade.
Embora tenham linhas de atuação parecidas, as duas operações são complementares, afirma Caio Raiza, sócio da XP responsável por expansão. Enquanto a WHG tem como foco o topo das fortunas familiares, com tíquete médio acima de R$ 100 milhões, a Oriz deve orbitar na faixa entre R$ 30 milhões e R$ 70 milhões. “A junção das duas empresas é perfeita”, diz. Desde o início de 2020, ele conta que já vinha conversando com Kawall, um perfil considerado único pelo histórico profissional e boa interlocução com investidores de alto patrimônio, o público institucional e entidades do mercado financeiro. A avaliação era que o nome dele também seria capaz de atrair banqueiros seniores para o projeto.
Kawall se tornou figura conhecida já como economista chefe do Citi, entre o fim dos anos 1990 e início dos 2000, depois foi diretor do BNDES, secretário do Tesouro Nacional, teve passagens pela Rio Bravo e BM&FBovespa (atual B3). De 2011 a 2019 foi economista-chefe do Safra, e o último posto foi o de diretor de macroeconomia da Asa Investments, de Alberto Safra, até o início ano. Faltava ser dono do próprio negócio no mercado financeiro. Já o sabático para se dedicar à produção de vinhos sob o selo Gomez Kawall, num condomínio vinícola em Mendoza, na Argentina, foi abreviado.
“Um empresário que quer fazer o IPO [oferta pública inicial] da sua companhia de R$ 1 bilhão vai ter disputa, mas se tem outras necessidades, de R$ 50 milhões a R$ 100 milhões, que é bastante dinheiro, ele cai num limbo”, diz Kawall. Com uma equipe com diferentes características, o plano é ir além do “arroz com feijão” dos investimentos tradicionais e avançar por classes alternativas, como situações especiais, ativos imobiliários e judiciais. “Há um monte de oportunidade que implicaria a necessidade de ao mesmo tempo estruturar as operações e encontrar pessoas que possam investir para viabilizar a realização dos projetos.”
No comando dessa vertical está João Lencioni, da Table Partners, que foi executivo sênior da Alvarez & Marsal e, antes, do Brasil Plural. “Já conversamos com alguns clientes que estão chegando na casa e dado o histórico da equipe, de já ter trabalhado com estruturação de grandes empresas, falências e crises operacionais, nos dá credibilidade para olhar para essas situações, fazer investimentos, aquisições e estruturação dos ‘deals’.”
A nova regulamentação da CVM, que tira do colo das instituições financeiras a exclusividade para ofertas públicas, é um dos gatilhos para a Oriz, afirma o advogado especializado em mercado de capitais Rafael Prudente, um dos nomes vindos do Safra.
Mesmo num ambiente de juros altos, que freou os ânimos para o risco, o diagnóstico é que é nos momentos de estresse que o cliente demanda mais proximidade, e que o sistema financeiro brasileiro aprofundará a sua desconcentração. “Não cuspo no prato que comi, me formei no Citi, no Safra, os bancos foram importantes para todos nós aqui, mas neles há o desafio do atendimento mais próximo, de ter independência, a segurança de que quando recomenda um fundo, um investimento, é porque o banqueiro olhou todas as alternativas e julgou ser a melhor e mais barata”, diz Kawall. “Muitas vezes no banco, de uma forma generalizada, há o viés de orientar o cliente a adquirir produtos da própria instituição.”
Ao reunir banqueiros experientes, a expectativa é que tragam parte das suas carteiras para a Oriz, diz Fabio Lellis, que administrava cerca de R$ 10 bilhões no Safra. Como as famílias milionárias distribuem seus recursos entre diversas instituições, o “rouba monte” é dos grupos que dominam o segmento private.
Formalmente, a Oriz é uma consultoria vinculada à XP, o que significa que seus clientes serão também da XP. A tomada de decisões caberá à gestora. Paulo Minari, outro executivo vindo do Safra, à frente da divisão de gestão de investimentos, diz ver uma transição no segmento de fortunas. Enquanto os mais velhos são mais apegados à placa dos grandes bancos, as novas gerações estão mais abertas às estruturas independentes. E há riquezas se formando nas movimentações de fusões e aquisições das startups. É um dinheiro que tem tempo e disposição para investir em ativos ilíquidos.
A asset da Oriz está em fase de aprovação na Anbima. A estrutura será dedicada à gestão de fundos exclusivos, sem produtos próprios, no mundo dos líquidos. Não está claro ainda se vale ter uma DTVM, diz Bruno Viveros, executivo-chefe de operações, outro ex-Safra.
Do Safra vieram ainda Bruno Malagoli, banqueiro que administrava R$ 800 milhões, Vanessa Hartmann, Daniela Caffaro, que era superintendente de planejamento financeiro e sucessório, e Marcos Bredda De Marchi, o economista-chefe, que ficou quase duas décadas no grupo e iniciou a carreira no family office de Joseph Safra. Do Julius Baer veio Rafael Barbosa e, como executivo-chefe da comunicação, assumiu José Eduardo Bastos, vindo da Octagon. Nem parece uma novata.
Fonte: Valor Econômico