Os mercados globais embarcaram de vez em um sentimento favorável a ações ligadas à inteligência artificial (IA). Com o peso crescente desses papéis nas bolsas americanas, os índices acionários em Wall Street seguem em níveis recordes e nem mesmo a incerteza derivada da guerra no Irã fere o otimismo dos agentes em torno do tema, na medida em que empresas como Micron Technology e a sul-coreana SK Hynix alcançaram a marca de US$ 1 trilhão em valor de mercado e o índice Kospi, da Bolsa de Seul, já encosta em 100% de valorização no acumulado do ano.
Desde a mais recente rodada de divulgação de balanços em Nova York, a indicação de que as big techs devem continuar investindo valores bastante elevados em IA fortaleceu a sensação no mercado de que ainda há espaço para algumas ações continuarem a subir, sobretudo as fabricantes de semicondutores. O “capex” (despesa de capital) das big techs destinado à IA já começa a se aproximar de US$ 1 trilhão nos cálculos de algumas casas.
A partir daí, papéis de empresas como SK Hynix, Micron e TSMC passaram a exibir ganhos ainda mais relevantes. Diante da forte participação das empresas de tecnologia na composição do S&P 500 e em índices como o sul-coreano Kospi e o taiwanês Taiex, o mercado “abraçou” a compra desses índices e papéis específicos como uma aposta na IA neste momento.
Do ponto mais baixo para as bolsas de Nova York desde o início da guerra no Irã, o S&P 500 já subiu mais de 18% e, assim, se aproxima do território de “bull market” (mercado altista, configurado quando há uma alta de 20%) – algo que já foi alcançado pelo Nasdaq, que avança 28% no período.
No encerramento da sessão de ontem, o índice Dow Jones subiu 0,36%, aos 50.644 pontos; o S&P 500 subiu 0,02%, aos 7.520 pontos; e o Nasdaq eletrônico teve alta de 0,07%, para 26.674 pontos.
E é justamente com base na tese construtiva em relação à IA que alguns bancos em Wall Street têm se apoiado para revisar para cima as projeções para as bolsas americanas. Ontem, foi a vez do Goldman Sachs, que passou a projetar o índice S&P 500 em 8 mil pontos no fim do ano e em 8.300 pontos em 12 meses. Parte da revisão veio de um aumento nas projeções de lucro por ação do S&P 500. Agora, o banco espera que o lucro das empresas que compõem o índice cresça 24% neste ano e 13% em 2027.
O Morgan Stanley também prevê que o S&P 500 atingirá o nível de 8.300 pontos em 12 meses e justificou o novo cenário-base pela expectativa de que os EUA entrarão em um forte ciclo econômico, impulsionado por resultados trimestrais robustos e pela adoção mais disseminada da IA.
“A resiliência dos resultados corporativos corrobora nossa visão, apesar do risco geopolítico, das preocupações com o crédito privado e da disrupção da inteligência artificial”, argumenta a equipe de estrategistas do Morgan Stanley liderada por Michael Wilson. Como justificativa adicional, o banco observa que houve uma surpresa de 6% no crescimento dos lucros do S&P 500 no primeiro trimestre, o maior nível em quatro anos.
Na Ásia, a tese de IA se mostra mais forte no sul-coreano Kospi e no taiwanês Taiex. No acumulado do ano até o pregão de ontem, o Kospi subiu 95,26%, enquanto o Taiex avançou 52,80%.
O movimento mais recente dos papéis de semicondutores nesta semana veio após o UBS triplicar o preço-alvo das ações da Micron, o que ajudou a puxar para cima o desempenho da SK Hynix. Além disso, o HSBC Private Bank também se mostrou otimista e ajudou a alimentar o rali, ao avaliar que o mercado ainda subestima a IA.
Vale notar que o otimismo com as techs nos mercados globais ocorre apesar de um aperto relevante nos juros de mercado, com as taxas de longo prazo em níveis bastante elevados ao redor do globo. Nos EUA, ainda que seja crescente a precificação no mercado na direção de uma alta nos juros americanos pelo Federal Reserve (Fed, banco central americano), o que tem deixado os juros em níveis altos, as bolsas em Nova York continuam a se valorizar.
Na avaliação do economista-chefe da Apollo Global Management, Torsten Slok, a dinâmica dos juros americanos é agravada pela redução do grau de sensibilidade da economia americana aos juros mais altos e um dos motivos é, justamente, o “capex” bilionário na IA. Ele observa, em particular, que as taxas de juros mais restritivas não têm desacelerado a atividade econômica ou a inflação no país. “Em resumo, os juros podem continuar subindo, porque os aumentos não estão desacelerando a economia e a inflação”, diz.
Para Slok, o Fed tem travado uma batalha contra o receio dos investidores de “perder” o “boom” de IA, o que tem contribuído para as pressões inflacionárias. A alta dos juros de mercado, que usualmente restringe o grau de investimento, não tem surtido o efeito esperado na economia americana, visto que os gastos com IA têm pouca sensibilidade ao grau de restrição da política monetária.
“Não importa o que o Fed faça. Há um medo de ficar de fora (FOMO) entre os ‘hyperscalers’, e os gastos com IA não são sensíveis a taxas de juros mais altas”, disse Slok. Esse receio está nas projeções de capex de empresas do setor, que devem atingir US$ 905 bilhões em 2027, segundo o Goldman Sachs.
Na sessão de ontem, mesmo com a queda do petróleo, os juros dos Treasuries seguiram elevados: A taxa da T-note de dois anos ficou em 4,041% e a da T-note de dez anos, em 4,488%. (Colaboraram Cristiana Euclydes e Luana Reis)
Fonte: Valor Econômico
