O fundo multimercado Verde montou uma estratégia de proteção em dólar no exterior para a hipótese de um quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva resultar num quadro fiscal insustentável. É um “must-have” (precisa ter) num cenário em que as coisas deem muito errado, segundo Luis Stuhlberger, principal executivo e executivo-chefe de investimentos (CEO e CIO) da Verde Asset Management.
“É aquele dólar que vale porque, se tiver qualquer restrição à saída de capitais, o dólar negociado ‘off[shore]’ vale muito mais que o ‘on[shore]’, o dólar que você compra aqui”, afirmou em evento anual do Verde. “É [se proteger contra] o risco de taxação cambial e o risco de fronteira. A gente vende o dólar futuro na B3Cotação de B3 e compra nos Estados Unidos, que é algo que, se tiver qualquer restrição, é um negócio que… na Argentina, isso chegou a valer 100% mais.”
Mesmo que o senador Flávio Bolsonaro (PL) vença a sucessão eleitoral, é difícil imaginar um grande “bull market” para o Brasil, como haveria caso o governador de São Paulo (Republicanos), Tarcísio de Freitas, concorresse e ganhasse o pleito, segundo o gestor.
“Há um potencial menor, mas ninguém vai falar em ajuste fiscal [na campanha] e vai ter que ser um estelionato eleitoral. O único candidato ‘sincericida’ que fala claramente que o Brasil precisa de um ajuste fiscal é o Renan Santos (Missão)”, afirmou. “Talvez seja uma torcida minha, mas ele é o único candidato que vai falar disso.”
Stuhlberger diz que, na fase pré-eleitoral, o governo vem lançando mão de seu arsenal de bondades e que o novo Desenrola, o programa de renegociação de dívidas, vai acabar batendo na inadimplência à frente, pelo risco moral de o brasileiro perceber que a cada dois anos há uma mãozinha do governo para pagar suas obrigações.
Só que, num cenário de juros altos, o serviço da dívida das famílias pode ter um comportamento explosivo, comentou. “O brasileiro, se pagar a valor de face, paga R$ 1 trilhão de juros por ano.”
O gestor observa a evolução da popularidade do governo Lula e disse ver o presidente ganhando pontos com suas bondades, “que não são poucas e ajudam a comprar votos de muita gente”. De outro lado, há o enfraquecimento da candidatura de Flávio Bolsonaro.
Stuhlberger disse ainda que o Brasil é uma “máquina de produzir dólares”, referindo-se às exportações de commodities. “Por isso que tem um fiscal horroroso, um governo péssimo, mas ainda assim um câmbio num lugar ok.”
O que mantêm o setor externo nos trilhos, continuou, é um déficit de 2,4% da conta corrente que vem sendo financiado pelo investimento estrangeiro direto e em portfólio. Ele diz haver potencial de atração para projetos de energia renovável, terras raras e afins.
Outra posição de hedge do Verde é o cupom cambial, o juro brasileiro em dólar, versus o SOFR, a taxa americana do overnight, que tem um custo baixo e só daria errado se houvesse uma enxurrada de capitais para o mercado brasileiro numa eventual vitória da direita nas eleições de outubro. Num cenário em que Flávio Bolsonaro ganhe, o gestor não vê esse fluxo se materializar.
Stuhlberger mantém 6,8% da carteira em ações selecionadas e disse que o mercado não vai “precificar um Lula catastrófico no D1 [no dia seguinte à vitória] e os gringos acreditam no Brasil”. Ou seja, vai dar tempo de mudar a chave. “Se você pensa em comprar dólar é melhor comprar no dia seguinte, porque eu não acho que ele vai estourar no primeiro dia, leva tempo, como aconteceu no [governo] Dilma [Rousseff] 2”, afirmou.
Há outra parte da carteira numa estrutura de opções no EWZ, o ETF do Ibovespa em dólar.
Para o bem e para o mal, a bolsa brasileira ficou muito mais dependente do capital externo. O estrangeiro atingiu a maior participação no fluxo total, enquanto os institucionais locais a menor, disse Antonio Barreto, chefe de análise de ações no Brasil da Verde. “Foi o que definiu praticamente toda a volatilidade de preço ao longo do primeiro semestre.”
No início de 2026, todo mundo queria comprar commodities, estava tudo bem e a bolsa subiu. A parada abrupta, Barreto atribui em parte à revisão de lucros das empresas americanas, onde o “resultado foi tão fantástico que direcionou esse fluxo de novo para fora do Brasil”.
Na parte da bolsa relacionada a commodities, Barreto disse ver um ambiente ainda propício pela frente. Os múltiplos das companhias do setor têm subido, mas, comparativamente, os das brasileiras Vale e Petrobras estão aquém de seus pares internacionais.
Tirando commodities da conta, a queda das ações nos últimos 30 dias chegou a 20%. O múltiplo médio dessas companhias foi a 9,7 vezes na métrica de preço/lucro (P/L, que dá uma ideia do prazo de retorno do investimento), já inferior à média deste terceiro mandado do presidente Lula. “A gente pode dizer muita coisa da bolsa, mas não pode falar que está cara. Isso não quer dizer que a bolsa vai ser um bom investimento.”
Barreto pontua que, apesar do múltiplo baixo, o estrangeiro continua saindo e não há “ninguém morrendo de vontade de alocar capital no Brasil”.
Localmente, tirando matérias-primas, praticamente não houve aumento das projeções de lucros, ou até foi levemente negativo. Mas ele diz haver uma gama de “empresas baratas geradoras de caixa, em grande parte desalavancadas e que devolvem muito capital, é uma bolsa que paga muito dividendo.”
Considerando-se um incremento de lucros da ordem de 8% com 6% de retorno em dividendos, o Brasil pode parecer mais competitivo, por essa ótica, “não está tão mal na foto”.
Só que, para o capital externo voltar para o país, ele precisa estar confortável com o câmbio. Num ano eleitoral, essa equação é mais complicada. Numa eventual desvalorização de 10% do real, o retorno previsto de 14% em reais cai de repente para 4% e o país passa a ser de longe a “pior geografia do mundo”.
Fonte: Valor Econômico