A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central de cortar a taxa Selic mesmo reconhecendo um distanciamento das variáveis econômicas em relação à meta de inflação de 3% foi contraditória e mal explicada no comunicado divulgado nesta quarta, avalia Fernando Rocha, economista-chefe da JGP. Para ele, ao reduzir a Selic a 14,25% sem sinalizar que um próximo corte exige uma melhora no cenário, o Copom deve causar uma “cristalização” das expectativas de inflação mais elevadas e arriscar uma perda da sua credibilidade. Veja, abaixo, os principais pontos da entrevista.
Valor: Qual a sua avaliação geral sobre a decisão e o comunicado?
Fernando Rocha: Achei bem contraditório. Toda a primeira parte do comunicado admite que as coisas pioraram, com aceleração dos indicadores de atividade, inclusive em setores mais cíclicos, as expectativas de inflação subiram, houve uma deterioração. A meta de inflação é 3%, as expectativas do relatório Focus estão em 4,10% e 3,68% (para 2027 e 2028). Mesmo assim, o BC encontrou um subterfúgio para cortar, o que é injustificável sob qualquer aspecto.
Valor: Qual foi, então, a justificativa do Copom para cortar a Selic?
Rocha: No parágrafo em que ele explora cenários alternativos ao Focus, o BC diz que o próximo horizonte relevante, o primeiro trimestre de 2028, mostra uma inflação abaixo da meta. Então o que ele fez foi estender o horizonte e dizer que pode convergir a inflação mais rápido ou devagar. Acho complicado isso, o horizonte de seis trimestres à frente é longo o suficiente e foi estabelecido para abarcar o pico do efeito da política monetária. Então, o BC está dizendo que o tempo vai resolver o seu problema. O tempo pode ajudar, como também pode não ajudar. Ele evita tomar uma decisão e influenciar o período que pode influenciar, e o que ele pode colher disso é a cristalização das expectativas em um nivel mais alto, o que acho que vai acontecer. Vai ficar mais custoso para ele combater a inflação alta depois.
Valor: A projeção de inflação do próprio BC aumentou…
Rocha: Sim, ele mesmo colocou a inflação do seu modelo em 3,7% e decide cortar assim mesmo, pois estende o horizonte um trimestre para frente. E ficou mal explicado, pois, pela matemática, nós não conseguimos chegar em uma inflação abaixo de 3% no primeiro trimestre de 2028, não sei como ele enxergou isso. De qualquer forma, a ancoragem da expectativa de inflação no longo prazo não o exime de tomar uma decisão hoje. O corte foi uma forçação de barra.
Valor: O que achou do balanço de riscos para a inflação, agora com um fator a mais de alta?
Rocha: Nesse ponto, o BC repete o que os economistas têm insistido, de que os estímulos à demanda vêm das medidas do governo e representam um risco de alta à inflação. Os riscos de baixa ele manteve, o que não está fazendo muito sentido mais. Não há indicativo de desaceleração da economia global e os preços do petróleo não estão reduzindo, eles subiram e agora estão voltando aos patamares anteriores à guerra. Acho que o Copom teria que fazer uma reforma extrema do balanço.
Valor: A recente queda do petróleo e a precificação de corte do mercado deixaram o BC mais confortável para reduzir a Selic?
Rocha: Imagino que tenha ajudado. Tenho reparado que, depois que Gabriel Galípolo assumiu a presidência, o BC tem feito o que está precificado no mercado no dia anterior à reunião. Então a gente achava que ele não iria divergir e daria o corte de 0,25 ponto. Agora, na explicação, ele derrapou feio. Acho que ele deveria parar os cortes, mas ainda passaria se ele indicasse o seguinte: ‘cortei, mas a barra para voltar a cortar é muito alta e tem que melhorar muito para isso’. Mas, do jeito que escreveu, estendendo o horizonte, cabe qualquer coisa. Até onde ele vai?
Valor: O BC colocou sua credibilidade em risco?
Rocha: Para mim, agora, ele entrou num terreno perigoso e pantanoso de perda de credibilidade, não tem meio termo nessa decisão. Na reunião passada, dava para discordar da decisão de cortar, mas não era tão claro. Tinha a incerteza do cenário de guerra e não tinham saído os dados de atividade do primeiro trimestre. Desde então, a guerra não acabou, a atividade do primeiro trimestre ficou forte, a taxa de desemprego está na mínima, os salários crescem acima da produtividade, há politicas de transferência de renda e fomento ao credito que sustentam a demanda agregada.
Valor: O BC sinalizou que pode voltar a cortar a Selic?
Rocha: Ele deixou tudo em aberto ao dizer que a magnitude do ciclo de ajuste será decidida à luz de novas informações. Isso é bem perigoso. Parece que o BC tem uma meta implícita de inflação maior do que 3%. Ele não está mirando em 3% e nem em seis trimestres à frente. Ao cortar com as expectativas de inflação se desviando da meta, ele repete a mesma coisa que aconteceu em 2011, quando o BC era presidido pelo [Alexandre] Tombini. Não existe mais dúvida de que o BC mudou a sua função de reação e voltou a um passado que não deu certo, de tentativa de baixar os juros com a expectativa de inflação subindo. Apostou em um cenário que não era o mais provável, de que a política econômica levaria a uma contenção da demanda, perdeu credibilidade e foi difícil recuperá-la.
Valor: Como o mercado deve reagir à decisão?
Rocha: Imagino que não vai reagir bem. Quando o BC faz algo sem credibilidade, a curva de juros inclina e a moeda começa a sofrer. Essa decisão joga pressão sobre o real, e acho que as expectativas de inflação, tanto do Focus quanto das implícitas extraídas das NTN-B, vão se distanciar ainda mais da meta. O BC se desviou dos seus parâmetros para tomar decisões, e quando o mercado fica sem parâmetro, ele ajusta na inflação esperada.
Fonte: Valor Econômico