Levantamento da PróGenéricos, com base em dados da IQVIA, mostra que mais de 1,8 bilhão de caixas foram vendidas no Brasil em 12 meses até novembro, alta de 8,92%
Por Stella Fontes — De São Paulo
29/12/2022 05h02 Atualizado há 2 semanas
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Telma Salles, da PróGenéricos: Ações judiciais para extensão do prazo de patente de medicamentos não têm evoluído — Foto: Ana Paula Paiva/Valor
As vendas de medicamentos genéricos nas farmácias brasileiras seguem crescendo perto de 10% ao ano em unidades e a expectativa para 2023 é de manutenção desse ritmo, se a conjuntura permanecer favorável.
Além da maior confiança do consumidor, outro suporte à perspectiva positiva dos laboratórios vem da indicação do novo governo de que está preocupado e quer expandir o Farmácia Popular. Cerca de 85% dos medicamentos dispensados no programa são desta classe.
“Passados 23 anos da lei [que liberou a venda desse tipo de medicamento], o mercado de genéricos está consolidado no país”, diz a presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Medicamentos Genéricos e Biossimilares (PróGenéricos), Telma Salles. Atualmente, dos 20 medicamentos mais prescritos por médicos no país, 15 são genéricos.
De acordo com levantamento da entidade, com base em dados da IQVIA, que audita o varejo farmacêutico, mais de 1,8 bilhão de caixas de genéricos foram comercializadas no Brasil entre dezembro de 2021 e novembro deste ano, um aumento de 8,92% frente ao período anterior.
Em unidades, os genéricos acompanham de perto o crescimento do mercado em geral, crescem acima dos tratamentos de referência (que sobem 6,41%), porém menos que os similares (12%).
Para a presidente da associação, que representa 16 farmacêuticas que, juntas, respondem por cerca de 90% do mercado nacional de genéricos e 50% do de biossimilares, há espaço para que as vendas cresçam à mesma velocidade no próximo ano.
O ritmo, observa a executiva, vai depender do comportamento da economia e da incorporação de novos produtos. Se por um lado o consumo em geral recua em momentos de crise, o fato de os genéricos terem de ser, por lei, 35% mais baratos que o medicamento de referência, estimula a migração para esses tratamentos conforme o ambiente econômico.
Na prática, ressalta Telma, o genérico chega a custar mais de 70% menos que o remédio “original”, garantindo o acesso a tratamento médico em especial à população de baixa renda. “O desafio é estar sempre com moléculas para novas patologias, estar apto a colocar o genérico à disposição da população”, acrescenta.
Em geral, os laboratórios são rápidos em ofertar novas moléculas assim que expira a patente do medicamento de referência. Por lei, essa exclusividade vale por até 20 anos, mas as farmacêuticas multinacionais têm recorrido à Justiça para tentar estender esse prazo.
No início do mês, mais de 40 ações individuais estavam em curso na Justiça Federal, pedindo prazo adicional à patente sob a alegação de demora na análise do pedido no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI).
“Essas ações, felizmente, não têm prosperado. É um movimento natural de quem perde mercado, mas a lei está aí também para apoiar os marcos legais”, afirma a executiva, referindo-se à decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), há menos de dois anos, que derrubou um dispositivo da Lei de Propriedade Industrial que abria uma brecha para extensão do prazo de exclusividade.
Do lado dos insumos farmacêuticos ativos (IFAs), cujo suprimento no Brasil depende das importações, Telma diz que ainda há alguns problemas, em especial a partir da China, porém sem impacto na produção brasileira.
Usados sobretudo no tratamento de doenças crônico degenerativas, os genéricos têm participação de 35,3% do mercado total de medicamentos em unidades no país. Considerando-se as compras públicas (mercado institucional), essa fatia chega a 50%. Em tratamentos para hipertensão, representam 73,37% do total, além de 78,54% para colesterol, 71,72% para ansiedade e 64,46% para depressão.
Entre os mais vendidos aparecem losartana, dipirona sódica, hidroclorotiazida, nimesulida, atenolol, sildenafila, enalapril, simeticona, paracetamol e sinvastatina, usados no tratamento das doenças que mais acometem a população, como pressão alta e diabetes.
O levantamento da PróGenéricos mostra ainda que, desde que começaram a ser comercializados no Brasil, esses medicamentos geraram uma economia de R$ 238,1 bilhões à população. Hoje, 97 laboratórios comercializam esse tipo de medicamento no país.
Após 10 anos à frente da PróGenéricos, Telma Salles deixa a posição nos próximos dias. O nome de seu sucessor ainda não é público.
Fonte: Valor Econômico