Por Marsilea Gombata e Lucianne Carneiro — De São Paulo e do Rio
26/04/2023 05h01 Atualizado há 3 horas
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As vendas no varejo restrito voltaram a cair em fevereiro, após alta em janeiro. No varejo ampliado, contudo, a alta surpreendeu. A perspectiva, contudo, é o varejo andar de lado nos próximos meses, com setores mais dependentes da renda impedindo contração maior e os mais sensíveis a crédito tendo um desempenho pior, apontam economistas.
Em fevereiro, o volume de vendas no varejo restrito teve recuo de 0,1%, ante janeiro, na série com ajuste sazonal, segundo a Pesquisa Mensal do Comércio (PMC), divulgada ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em janeiro, frente a dezembro, o comércio restrito havia avançado 3,8%, uma reação após queda de 2,8% no mês anterior. Ante fevereiro de 2022, o restrito avançou 1%.
A queda mensal foi menor do que esperado. A mediana estimada pelo Valor Data, apurada junto a 23 consultorias e instituições financeiras, era de recuo de 0,3%. Já a alta anual foi maior que a mediana que previa crescimento de 0,4%, com intervalo entre queda de 1,4% e crescimento de 3,6%.
No varejo ampliado, que inclui as vendas de veículos e motos, partes e peças, material de construção e atacarejo, o volume de vendas subiu 1,7% na passagem entre janeiro e fevereiro, já descontados os efeitos sazonais. Analistas de 20 bancos e consultorias esperavam alta de 0,7%, segundo a mediana. Em janeiro, o comércio ampliado havia subido 0,2%, ante dezembro.
O crescimento do varejo ampliado em fevereiro, contudo, deve ser visto com cautela, afirma Rodolfo Margato, economista da XP.
Ele lembra que os métodos de dessazonalização ficaram mais sensíveis e houve mudança metodológica na PMC. “Outra evidência que mostra necessidade de cautela tem a ver com as aberturas setoriais. Considerando as dez atividades do varejo ampliado, três tiveram crescimento em fevereiro”, diz, ao lembrar que o segmento de veículos foi a surpresa positiva. “Além disso, as que cresceram apresentam forte oscilação na comparação mês após mês.”
Na comparação com fevereiro de 2022, o volume de vendas do varejo ampliado caiu 0,2%. A expectativa era de alta de 1,7%.
Em fevereiro, a receita nominal do varejo restrito teve alta de 0,3%, ante janeiro. Na comparação com fevereiro de 2022, o aumento foi de 7,5%. A receita nominal do varejo ampliado avançou 1,8% em fevereiro, ante janeiro. Na comparação com fevereiro do ano passado, a alta foi de 6,6%.
As vendas do comércio recuaram em seis das oito atividades pesquisadas no varejo restrito, como equipamentos e material para escritório informática e comunicação (-10,4%), tecidos, vestuário e calçados (-6,3%), outros artigos de uso pessoal e doméstico (-2,0%). Apenas duas atividades subiram – farmacêuticos, médicos, ortopédicos e de perfumaria (1,4%) e livros, jornais, revistas e papelaria (4,7%).
No varejo ampliado, houve alta de 1,4% em veículos, motos, partes e peças e queda de 2% no material de construção.
Das 27 unidades da federação, 14 apresentaram queda no volume de vendas em fevereiro ante janeiro, com destaque para Paraíba (-11,5%), Espírito Santo (-5,2%) e Piauí (-1,9%).
O aumento das vendas de artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos e de perfumaria, que vinham de dois meses seguidos de queda, ajudou a manter o comércio restrito no campo da estabilidade em fevereiro, segundo Cristiano Santos, gerente da PMC
Essa tendência deve seguir, afirma Isabela Tavares, economista da Tendências Consultoria. Ela afirma que, enquanto vendas de vestuário e eletrodoméstico devem continuar desacelerando nos próximos meses, diante dos juros altos e maior inadimplência, segmentos mais dependentes da renda tendem a impedir uma queda mais acentuada das vendas no varejo neste ano.
“Reajuste do salário mínimo e avanços em programas sociais devem ajudar segmentos de primeira necessidade. Isso impede uma maior perda no varejo e resultados mais fracos”, diz Isabela. “No acumulado de 2023, o varejo deve crescer devido a segmentos mais dependentes de renda, como supermercados e artigos farmacêuticos.”
A tendência é o desempenho heterogêneo seguir nos próximos meses, dizem economistas.
“De um lado, o encarecimento do crédito e o alto comprometimento de renda das famílias devem seguir pesando sobre os itens de maior valor agregado. De outro, o bom desempenho do mercado de trabalho em um ambiente de arrefecimento da inflação e transferências de renda por parte do governo dão sustentação ao varejo restrito”, afirmaram Marco Caruso e Igor Cadilhac, do banco Original, em nota enviada a clientes.
A Tendências prevê queda de 0,5% do restrito em março, ante fevereiro, e alta de 2,9%, frente março de 2022. Para o ampliado, queda de 1% na variação mensal e alta de 5%, na comparação anual.
A XP espera contração de 1,1% no varejo ampliado e de 0,6% no restrito em março, ante fevereiro.
Fonte: Valor Econômico
