Por Amilton Pinheiro — para o Valor, de São Paulo
19/07/2023 05h14 Atualizado há 3 horas
A renovada preocupação do governo com a questão ambiental, depois dos quatro anos de descaso na administração do presidente Jair Bolsonaro, ajuda a reverter a deterioração do soft power brasileiro, afirma o economista-chefe da consultoria MB Associados, Sergio Vale. “Mas o país precisa fazer conjuntamente o seu dever de casa, melhorando o ambiente econômico e voltando a crescer sem volatilidade”, acrescenta.
Vale lançou recentemente dois livros, um deles sobre a questão da influência que os países exercem sem o uso da força militar ou de políticas restritivas, como sanções econômicas. “Impacto da economia e das instituições no soft power e hard power” é fruto da sua tese de doutorado em relações internacionais pela Universidade de São Paulo, defendida em 2019. O outro título é “Travessia sem fim”, no qual reúne artigos que publicou na imprensa desde 2016.
A questão ambiental é importante para atrair mais investimentos, principalmente os de longo prazo. Por isso, segundo Vale, o governo Lula tem a oportunidade de reverter a imagem negativa criada nos quatro anos da gestão Bolsonaro, diminuindo o ritmo de crescimento do desmatamento. Isso seria “essencial não apenas para a questão climática, pois tem o potencial de tornar o país mais atrativo para investimentos estrangeiros. Cada vez mais as empresas querem investir em países com preocupação ambiental”, explica.
“A qualidade ambiental ajuda na melhoria do soft power, mas ela só irá se consolidar quando o país voltar a se desenvolver com instituições fortes e crescimento com estabilidade. Crescer com tanta volatilidade como temos feito também não ajuda no soft power, Há um longo caminho a percorrer, vai ser difícil ver o Brasil conseguir alavancar seu soft power nas próximas décadas.”
Como a questão ambiental se tornou incontornável por causa das mudanças climáticas, isso afetará cada vez mais os investimentos no mundo, entende Vale, que está fazendo seu pós-doutorado no Instituto de Estudos Avançados (IEA) na USP. Um dos artigos que escreveu em coautoria com a professora Lourdes Sola, sua orientadora, será apresentado no Encontro da Associação Internacional de Ciência Política (IPSA, sigla em inglês), em Buenos Aires, e diz respeito à agenda ESG (conceito que reúne a políticas ambiental, responsabilidade social e governança). “Países que não cuidam de seu meio ambiente poderão ter menos presença de investimento, como se pode ver pela expansão da ideia do ESG. Levar a discussão do ESG, que hoje é basicamente empresarial, para um ponto de vista de governança mundial”, diz Vale.
Com uma formação acadêmica em economia, tendo mestrados pela FEA-USP e pela Universidade de Wisconsin-Madinson, nos Estados Unidos, aliada a uma larga experiência no mercado, como sócio e economista-chefe da MB Associados, desde 2006, Vale decidiu fazer um doutorado em outra área do conhecimento por acreditar que “as relações internacionais têm um foco de juntar economia, política e história, e por ser interdisciplinar acaba se tornando naturalmente interessante para quem é de economia que, em geral, tem visão mais focada de fato nos assuntos econômicos sem levar em conta a necessária relação entre essas diversas áreas, especialmente política e geopolítica, a qual se tornou ainda mais relevante depois da guerra da Ucrânia”.
Em relação à guerra na Ucrânia, Vale argumenta que o governo Lula perde tempo em querer mediar na seara mundial o conflito, o que vai além de sua capacidade diplomática de negociação nesta área, e cita como exemplo a malfadada tentativa no passado do Brasil de articular uma solução na crise entre Estados Unidos e Irã pela questão nuclear.
“O foco do governo Lula na seara internacional tem que ser na economia em torno de fazer o acordo comercial com a União Europeia e entrar na OCDE. Esse seria o maior legado internacional que o governo Lula poderia deixar”, afirma.
Se a melhoria constante no soft power passa pelo fortalecimento da economia e das instituições, o Brasil precisa continuar implementando as reformas necessárias e permanentes para que o país volte a crescer com estabilidade, assuntos que Vale aborda em “Travessia sem fim”.
“A última década no Brasil foi particularmente difícil, começando com os movimentos de junho de 2013. É como se tivéssemos vivendo um looping negativo desde então, sem conseguir sair, e o resultado são anos de crescimento muito baixo e piora na qualidade de vida da população”, diz.
Além das dificuldades internas, o mundo também passou por inúmeras desafios, culminando com a guerra na Ucrânia. “Crescer em mar tão revoltoso não será nunca simples e dependerá cada vez mais de um esforço doméstico que vimos acontecer de forma muito lenta no Brasil”, afirma.
Enquanto o governo Lula aguarda que o Congresso vote o Arcabouço Fiscal, a rápida e ampla aprovação da reforma tributária pela câmara dos deputados criou as condições para que o país cresça um pouco acima do que era esperado. “Com os bons ventos que o agronegócio está trazendo para a economia este ano, há chances reais de o governo terminar o ano em um patamar bem melhor do que começou. Não há reformas suficientes e novas nem um mundo em forte expansão para justificar expectativas muito animadoras para os próximos anos, mas a chance de um crescimento na casa dos 2% é razoável. Mais do que isso vai demandar um esforço maior do governo em seguir nas pautas certas”, diz.
Impacto da economia e das instituições no soft power e hard power – Sergio Vale. Appris, 140 págs., R$ 46,00
Travessia sem fim: Economia e política em transformação no mundo e no Brasil – Sergio Vale. Appris, 195 págs., R$ 59,00
Fonte: Valor Econômico