Por Adriana Cotias — De São Paulo
19/07/2023 05h03 Atualizado há 4 horas
Em meio à reestruturação societária da Truxt Investimentos, a primeira desde que foi fundada, em 2017, o gestor de ações Marcel Guetta e dois analistas seniores deixaram a gestora. A asset, fundada por José Alberto Tovar e Bruno Garcia, com um time vindo da ARX Investimentos – vendida para o americano BNY Mellon -, fundamenta as bases para um processo de sucessão. Vai abrir espaço para outros profissionais ascenderem na holding que hoje tem só os dois executivos como sócios. Tovar, o CEO, com 63 anos, deve fazer uma saída progressiva, em três anos.
As movimentações ocorrem após rumores de que os dois, juntos há mais de duas décadas, estariam em rota de colisão e se separariam. “O que a gente pensou ao longo dos últimos meses é, gradualmente, trazer algumas pessoas mais seniores para a sociedade, fazer uma estrutura mais abrangente”, diz Tovar, em conversa com o Valor, ao lado de Garcia. “Tem muito benefício financeiro, de ser dono da empresa, poucas gestoras são assim. A gente desenha há algum tempo e tem que escolher os sócios para isso, eles precisam contemplar uma série de qualidades, além da competência, de gerar receita para a empresa e o pagamento de bônus. A gente quer pessoas que levem a empresa para os próximos dez anos.”
Garcia explica que já havia, entre gestores e analistas, profissionais com parcela pequena em outra empresa (a Truxt Participações). A ideia, agora, é trazer alguns minoritários para “o andar de cima, para o grupo de controle”, o que significa que os atuais controladores não vão ter o poder discricionário para decidir quem fica e quem sai, como ocorre hoje. Num primeiro momento, pelo menos cinco colaboradores devem ganhar participação. “É construir uma nova geração por meio de cotas da holding dadas aos executivos que topem, é uma transição geracional, a empresa continua, se torna perene.”
Só que para dar esse passo, os executivos pediram que os profissionais seniores assinassem uma cláusula de “não competição” – e Guetta não teria aceitado. “Sócio controlador não compete com sócio controlador, é desleal, tem que se desligar com antecedência e cumprir o ‘non compete’ sem atacar funcionários, sócios e clientes”, diz Garcia. Num primeiro momento, Guetta preferiu não comentar. Seu plano é fundar uma nova gestora.
A Truxt já tinha acertado a contratação de Wlad Ribeiro para reforçar a estratégia de ações. O executivo começaria em agosto, mas a saída de Guetta antecipou a sua chegada. O gestor acumula experiência de mais de 15 anos na área. Começou a carreira em 2008 no antigo BBM, foi sócio e gestor na SPX Capital (2013 a 2018). Na Itaú Asset Management, atuou até 2020, quando saiu junto com a equipe que fundou a Genoa Capital, deixando a casa em abril. Na Truxt, ele vai estar ao lado de Garcia, que faz gestão de ações e é o executivo-chefe de investimentos.
Tovar cita que entre 2018 e 2020, na fase em que os juros só caíam, o setor estava aquecido, ninguém queria sair das assets estabelecidas. E quem se mexia para empreender conseguia captar e ter sucesso. Depois, com o ciclo de aperto monetário e o enorme deslocamento de recursos da indústria de fundos para a renda fixa, “há uma série de talentos disponíveis no mercado”. Neste ano, a Truxt trouxe Guilherme Foreaux e Kaio Sartori, ambos da Vista Capital, para reforçar a estratégia macro, mas registrou a baixa de Mariana Dreux, que foi para a Itaú Asset Management.
A saída progressiva de Tovar vem da percepção de que em dez anos não vai ter a mesma energia que exibe atualmente, “embora tenha 63 anos com corpinho de 53”, brinca. “Tinha que programar o meu ‘phase out’ em algum momento, um mecanismo que renove a empresa e premie os melhores talentos para serem não só gestores, mas empresários também.”
Ainda não foi definida a participação que Tovar e Garcia vão manter nessa primeira rodada da reestruturação. Algumas das atribuições de Tovar já vêm sendo assumidas por Carla Madeira, advogada que atua como executiva-chefe de operações, compliance e jurídico, desde 2015 com o executivo. “Em nenhum momento é o Tovar saindo e o Bruno ficando sozinho, desfocando da gestão”, reforça. “Não que a gente não brigue, a gente briga o tempo todo.”
Tovar é de uma geração pioneira de gestoras independentes no mercado brasileiro. Fundou a ARX em 2001, bem no ano dos ataques terroristas ao Pentágono e às Torres Gêmeas, nos Estados Unidos. Foi nessa época que conheceu Garcia, que começou como gestor júnior, na equipe de Carlos Eduardo Ramos (hoje na Mantaro Capital), mas logo ele se destacou e assumiu na estratégia “long short” (de arbitragem de ações). Quando Tovar viajou para Nova York para fechar a venda da gestora para o BNY Mellon, em 2008, Garcia já estava ao lado dele na negociação, conta o executivo. “Nas últimas 72 horas, eu e ele passamos mais tempo juntos do que com as nossas mulheres, redesenhando a empresa, juntos como sempre.”
Após vencida a cláusula de não competição, esticada por três anos em relação ao acordo original, em 2016, Tovar propôs ao BNY Mellon um modelo de “partnership”. O grupo não conseguiu, contudo, conciliar tal arranjo na sua estrutura, afirmou o executivo à época. Na Truxt, Tovar e Garcia passaram a dividir o controle, levando 12 pessoas do antigo time. Num primeiro momento, não fizeram a modelagem para ascensão dos demais, rota que tomam agora com o barco em movimento.
Com a recuperação da bolsa, novos lances são esperados na indústria de fundos de investimentos. Isso porque depois de resultados sofríveis em 2021 e 2022, muitos portfólios ainda estão abaixo da linha d’água para gerar remuneração por taxa de performance, observa um alocador – que entre as atribuições, escolhe os melhores fundos para os recursos de seus clientes. O Truxt I Valor FIA, por exemplo, acumula neste ano ganhos de 11,31%, depois de perdas de 20,6% e 4,97% em 2021 e 2022. O “long bias” tem alta de 7,7% no ano, após valorização de 5,75% em 2022 e recuo de 21,4% em 2021.
Assim como todo o setor, a Truxt viu o seu patrimônio encolher, de R$ 19 bilhões no fim de 2020 para R$ 14,8 bilhões no encerramento de 2022, conforme os formulários de referência dos respectivos anos. No último ranking da Anbima, de maio, aparecia com resgates de R$ 2,5 bilhões em 2023, e de R$ 4,1 bilhões em 12 meses.
Fonte: Valor Econômico