Os mercados continuam assustados com juros de longo prazo em níveis muito altos nos Estados Unidos. O movimento mais recente dos Treasuries, com um salto relevante das taxas ultralongas, tem tirado o sono de alguns participantes do mercado. E a preocupação também parece ter se espalhado para a Casa Branca, onde há alguns sinais do governo de incômodo com a piora relevante do ambiente de risco na renda fixa.
O salto dos juros nominais de longo prazo é bastante forte e, entre os investidores, o vencimento de 30 anos tem sido a grande fonte de preocupação. Ontem, a taxa do T-bond de 30 anos fechou negociada a 5,230% e se encaminha, agora, para a marca de um mês cotada acima da marca psicológica de 5%. Não é pouca coisa. Sobretudo ao se olhar a dinâmica da curva de juros reais, onde as TIPS [títulos americanos indexados à inflação, similares às NTN-Bs] estão negociando com taxa de 3% no vértice de 30 anos.
“A curva de juro real americana é algo a que eu tenho que ficar atento o dia inteiro. É o tipo de coisa que pode quebrar o brinquedo”, diz o gestor de uma importante casa da Faria Lima. “Eu fico genuinamente preocupado.
Na DoubleLine, que tem US$ 96 bilhões sob gestão e que é uma das casas mais influentes no mercado global de renda fixa, a cautela com o comportamento dos juros de longo prazo também tem aumentado, sobretudo após a coletiva de imprensa do presidente do Federal Reserve (Fed), Kevin Warsh, na semana passada. “Os detentores de títulos de 30 anos querem altas nos juros do Fed, e não mais comitês do Fed”, disse o CEO da gestora, Jeffrey Gundlach.
O gestor Eric Dhall, também da DoubleLine, vai na mesma linha no podcast semanal da casa. “A história que o mercado está contando hoje é a de que há uma preocupação com o déficit fiscal, com a situação das contas públicas e com as expectativas de inflação”, disse o profissional ao justificar o aumento relevante da inclinação das curvas de juros americanas desde a reunião do Fed.
E, com as emissões de dívida de hyperscalers como concorrentes dos Treasuries de longo prazo e uma situação fiscal difícil, o mercado continua a exigir prêmios elevados.
Essa dinâmica também parece estar no radar do governo Trump. Ao menos é nisso que parte de Wall Street acredita, ao observar a intervenção conjunta no mercado de câmbio entre EUA e Japão, que resultou em uma forte valorização do iene e que pode ter, como motivo oculto, um temor do Tesouro americano com algum estresse a mais na renda fixa.
Em nota enviada a clientes, a estrategista de moedas Jane Foley, do Rabobank, lembra que, ao longo do mês de julho, o mercado debateu uma possível mudança na atuação do Japão para dar apoio ao iene por meio da pressão de fundos de pensão, como o GPIF, para repatriar recursos para o mercado japonês, convertendo ativos de volta para ienes.
“Esse movimento provavelmente chamou a atenção do Tesouro americano, já que o Japão é o maior detentor estrangeiro de títulos do governo dos EUA. Qualquer movimento de grande escala de venda de Treasuries americanos teria implicações claramente negativas para o custo de financiamento do governo americano”, observa Foley.
A leitura reforça a tese, discutida em Wall Street, de que a estabilidade — bastante frágil — do mercado de Treasuries pode ter pesado nas preocupações das autoridades americanas.
Isso tudo em um momento no qual a gestão da dívida americana não tem sido das mais fáceis, com sinais de que as emissões de títulos podem acelerar ainda mais. Ontem, o Tesouro dos EUA surpreendeu o mercado. Ao divulgar a atualização trimestral das estimativas de financiamento, o órgão projetou uma necessidade líquida de captação de US$ 739 bilhões no trimestre atual. O valor superou a projeção anterior do próprio Tesouro em US$ 68 bilhões e também ficou acima dos níveis estimados pelo mercado.
“No acumulado, as necessidades de financiamento do Tesouro ao longo desse período ficaram US$ 127 bilhões acima das nossas estimativas, concentradas principalmente no trimestre de outubro a dezembro”, diz o chefe global de estratégia de juros do J.P. Morgan, Jay Barry. “Na margem, isso sugere algum risco de alta para a nossa projeção de déficit fiscal de US$ 1,96 trilhão no ano fiscal de 2027.”
Resta saber, agora, como o Tesouro irá gerir essa dívida. Nos últimos meses, tem havido um encurtamento relevante do perfil da dívida nos EUA, com a intenção de não pressionar os vencimentos mais longos. Como resultado, aproximadamente 22% da dívida mobiliária americana estão em T-bills, ou seja, vencem em até um ano. E, pelo que tem sinalizado Scott Bessent, essa estratégia está longe de chegar ao fim.
Fonte: Valor Econômico

