O Tesouro Nacional voltou a agir no mercado de títulos públicos nesta terça-feira e recomprou mais R$ 9,4 bilhões em prefixados e R$ 7,1 bilhões em NTN-Bs, papéis indexados à inflação. Assim, desde ontem, foram quatro operações no mercado que somaram R$ 43,99 bilhões em recompras — a maior intervenção da história em valor nominal. Até mesmo a megaoperação no período da covid-19 ficou para trás e, ainda assim, os juros futuros terminaram a sessão em alta, em um novo sinal sobre as condições adversas de mercado.
“O Tesouro continuou a dar alívio para a parcela do mercado que sofreu com ‘stops’ na semana passada”, observa um estrategista, ao lembrar do acionamento, na sexta-feira, de ordens de encerramento automático de posições para limitar perdas (“stop-loss”). Essa dinâmica afetou boa parte dos fundos locais, que estavam amplamente alocados no mercado de juros com estratégias que apostavam na queda das taxas futuras.
Se na segunda-feira houve um alívio relevante nas taxas prefixadas e nas NTN-Bs, hoje a situação foi diferente. Os juros futuros deram início à sessão em queda, mas inverteram o sinal ao longo da tarde em meio a uma preocupação dos agentes financeiros com a possibilidade de uma paralisação de caminhoneiros em protesto contra a alta do diesel. A taxa do DI para janeiro de 2028 subiu de 13,575% no ajuste anterior para 13,635%; e a do DI para janeiro de 2029 foi de 13,575% para 13,605%.
O maior programa extraordinário de recompra de títulos públicos pelo Tesouro era, até então, o de março de 2020 devido ao pânico no início da pandemia de covid-19. No total, foram recomprados R$ 35,59 bilhões na época, de acordo com cálculos da Necton Investimentos. Ao se considerar a quantidade de risco adicionada ao mercado (dv01), a atuação do Tesouro durante a pandemia ainda é superior — aproximadamente R$ 19,1 milhões contra R$ 14,3 milhões, atualmente
Além disso, houve atuações do Tesouro nos mercados em outros períodos de estresse, como em dezembro de 2024, no auge da desconfiança dos agentes de mercado com a sustentabilidade do arcabouço fiscal; na greve dos caminhoneiros, em 2018; no “Joesley Day”, em 2017; na primeira eleição de Donald Trump, em 2016; e na perda do selo de grau de investimento do Brasil, em 2015.
Para Frederico Catalan, membro da gestão de renda fixa do Opportunity, a atuação do Tesouro foi importante para reestabelecer o bom funcionamento do mercado de juros, que exibiu disfuncionalidade no fim da semana anterior.
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“A atuação foi muito boa. O Tesouro agiu bem, de forma preemptiva e bastante decidida. Atuou rapidamente, após dois dias em que o mercado de juros locais negociou muito mal, com um movimento técnico relevante até sexta-feira e colocou um lote bastante significativo, tanto no prefixado quanto nas NTN-Bs”, diz o gestor.
Para ele, a atuação desta terça-feira consolidou a estratégia e o Tesouro pode seguir atuando nos próximos dias. “Foi uma intervenção como deveria ser: sem esperar muito e, quando entrar, entrar com um lote relevante para, de fato, causar impacto e normalizar o mercado.”
Já o gestor de renda fixa da Porto Asset, Gustavo Pi Okuyama, avalia que a intervenção poderia ter aliviado ainda mais a pressão no mercado se fosse realizada na sexta-feira, 13, dia em que houve o maior estresse nos juros futuros. “Mas, de qualquer maneira, o Tesouro foi bem correto na intervenção, com um bom timing”, enfatiza.
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Sobre o tamanho da intervenção, Okuyama faz a ressalva de que o Tesouro poderia ter atuado de forma mais comedida no inícip, o que poderia resultar em mais espaço para o alívio no mercado se estender ao longo dos próximos dias. “Não é consenso de que foi estratégia ótima ele ter vindo com um tamanho tão grande e ter sido até agressivo em aceitar as propostas.”
“Vimos isso no ‘price action’ [da sessão desta terça-feira]. Quando o Tesouro interveio, o mercado performou bem e as curvas fecharam [caíram], mas, ao longo do dia, com a notícia de uma possibilidade de greve dos caminhoneiros, que não parece ser o cenário-base, houve uma nova piora relevante das taxas”, afirma.
Assim, para Okuyama, em vez de colocar um lote tão grande de uma vez, o Tesouro poderia ter desenhado um programa com duração maior, no qual o mercado teria certeza de que ele atuaria independentemente da dinâmica de preços. “Talvez fosse uma estratégia onde ele conseguiria agir por mais tempo e ter um resultado melhor. Sobra essa dúvida no mercado sobre se ele vai conseguir ou não manter esse ritmo.”
O gestor da Porto Asset também espera que a atuação continue. “Não sei se na mesma magnitude, mas vimos [nesta terça-feira] movimentos fortes e alguns momentos de descontinuidade ao longo do dia, que mostram que o mercado ainda está longe de operar na normalidade. Faz sentido ele continuar no mercado, pelo menos por alguns dias. Não sei se com esse tamanho todo, mas, pelo menos, para mostrar que está ali para diminuir a volatilidade”, diz.
Em condição de anonimato, outro gestor de uma importante casa local avalia que a atuação extraordinária chancela o bom trabalho que o Tesouro fez ao acumular caixa nos últimos meses. “Até me surpreendeu ele anunciar logo nesta semana. O cenário de guerra e petróleo ainda está muito instável. Mas, no fim das contas, ele tinha espaço para fazer e acabou usando sua bala de prata”, aponta.
O gestor diz não compreender exatamente o racional de o Tesouro ter anunciado as atuações em NTN-Bs e em prefixados no mesmo dia. “Acho que ele quis passar o recado de que veio para resolver o problema. Não sei dizer se foi certo ou não. À tarde, tivemos o leilão de NTN-B e, logo depois, o ruído envolvendo os caminhoneiros. Adiantou? Parece que não.”
Fonte: Valor Econômico
