Diante da disparada dos preços do petróleo e do salto dos juros globais, especialmente os de curto prazo, o mercado se questiona cada vez mais sobre a possibilidade de o Banco Central Europeu (BCE) elevar novamente as taxas de juros neste ano.
Os riscos de maior pressão inflacionária e de desaceleração do crescimento também podem fazer com que a presidente da autoridade monetária, Christine Lagarde, tenha de abandonar um mantra que se tornou comum desde o ano passado: de que a política do BCE está “em um bom lugar”. Essa é a avaliação da diretora de investimentos (CIO) para EMEA (Europa, Oriente Médio e África) do banco suíço Lombard Odier, Nannette Hechler-Fayd’herbe.
Instituições de peso no mercado já revisaram para baixo as projeções de crescimento e aumentaram as perspectivas de inflação para a zona do euro. O Goldman Sachs, por exemplo, espera um avanço do Produto Interno Bruto (PIB) de apenas 1,1% em 2026, 0,1 ponto percentual abaixo do previsto anteriormente, além de uma inflação em 2,2%, 0,3 ponto acima da estimativa prévia.
Em entrevista ao Valor, Hechler-Fayd’herbe explica que, caso haja uma nova escalada na guerra no Irã e o preço do petróleo aumente ainda mais, a Europa poderia enfrentar um choque estagflacionário. “Nunca é confortável para um banco central enfrentar um ambiente estagflacionário. Esse seria um dos piores e mais desconfortáveis cenários.”
A executiva também se mostrou surpresa pela fala de Lagarde de que a zona do euro estaria mais bem preparada para um choque do petróleo do que em março de 2022, quando teve início a guerra na Ucrânia.
A perspectiva de um choque inflacionário levou os juros dos títulos soberanos de curto prazo a avançarem em praticamente todas as economias desenvolvidas, em uma reprecificação dos riscos inflacionários. A resposta dos investidores para o BCE foi um pouco mais conservadora, visto que há alguns meses o mercado ventilava a possibilidade de novos cortes para tracionar a economia e, hoje, uma alta dos juros já é considerada, além de ser debatida por membros da autarquia.
Desde o início da guerra, o juro do título soberano alemão (Bund) de dois anos avançou aproximadamente 40 pontos-base (0,4 ponto) e chegou a atingir o maior nível dos últimos 19 meses. O mesmo foi visto no papel de prazo semelhante da Itália, que subiu pouco mais de 50 pontos-base, próximo da máxima de 14 meses.
Apesar da forte reprecificação, a reação dos investidores até o momento não parece exagerada, na avaliação da executiva do Lombard Odier. Ela nota, porém, que não se deve interpretar demais essas movimentações, considerando a rapidez com que o mercado responde aos novos desdobramentos no Oriente Médio. E, caso o BCE tenha de responder ao choque inflacionário com um aumento dos juros, Hechler-Fayd’herbe também alerta que é possível ver um grau de pressão nas taxas longas, visto que será necessário tracionar a economia do continente de outras formas.
“Se o BCE tivesse que aumentar os juros, provavelmente a política fiscal teria que intervir e haveria mais gastos públicos para estabilizar a situação em um cenário de crise. Assim, os rendimentos subiriam em todos os níveis”, avalia a executiva. No cenário-base do banco suíço, os juros ainda devem ficar parados na zona do euro e seria necessário um preço ainda mais alto do petróleo nos próximos seis meses para novas medidas de aperto monetário serem adotadas.
O banco projeta o preço médio do Brent nos próximos seis meses em US$ 75 por barril, mediante uma desescalada na guerra no Irã, se não houver danos de maior grau à estrutura petrolífera do Oriente Médio. Caso contrário, com impactos duradouros na infraestrutura da região, o preço médio projetado é de US$ 115.
Outras instituições financeiras corroboram a visão de que o BCE manterá as taxas inalteradas a menos que a guerra escale ainda mais. Esse é o caso do Goldman Sachs, embora o banco acredite que Lagarde irá reiterar que a política monetária está “bem posicionada” para reagir aos eventuais choques nos preços.
O economista-chefe para Europa do Goldman, Sven Jari Stehn, espera que a análise do BCE seja bastante semelhante ao cenário de dezembro de 2023, mostrando um impacto considerável no PIB e um grande aumento na inflação geral. “Esperamos que Lagarde destaque a incerteza criada pela guerra com o Irã”, diz Stehn.
O Goldman Sachs não descarta, porém, a possibilidade de que o BCE precise aumentar os juros caso o cenário do petróleo se torne mais adverso. Com uma maior deterioração do mercado de energia, o banco projetaria três altas de 0,25 ponto a partir de junho.
Os economistas do Barclays também esperam que o BCE mantenha os juros inalterados no decorrer deste ano, mas com o reconhecimento de que as consequências econômicas do conflito permanecem altamente incertas.
O banco britânico também espera que Lagarde altere a linguagem da comunicação, ao enfatizar que o BCE está em uma “boa posição”, e não em um “bom lugar”. Além disso, o Barclays espera que a autarquia reforce a mensagem de que as taxas não estão em uma trajetória predeterminada. “Isso poderia abrir caminho para uma recalibração mais rigorosa da política monetária caso o choque energético se torne mais persistente.”
Fonte: Valor Econômico
