O Paquistão realizou ontem ataques aéreos dentro do território iraniano, em retaliação a um ataque aéreo iraniano no Paquistão no início desta semana contra insurgentes iranianos, gerando temores de um conflito cada vez maior em meio ao aumento das tensões no Oriente Médio.
Os dois países tiveram o cuidado de dizer que tinham como alvo os seus próprios cidadãos nos ataques, uma indicação de que nenhum dos dois quer ver uma escalada da situação, segundo especialistas. Mas os riscos de um erro de cálculo permanecem numa região em estado de alerta desde o início da guerra entre Israel e o Hamas.
Para analistas, o ataque iraniano ao Paquistão foi impulsionado pelos esforços do Irã para reforçar a sua segurança interna, e não pelas suas ambições para o Médio Oriente. Além disso, o arsenal usado nos ataques contra o Paquistão, Síria e Iraque, também serviu para o Irã mostrar sua capacidade ofensiva e a sofisticação de seus mais novos mísseis e drones, destacando suas credenciais como um importantes fornecedor de armas. A Rússia, por exemplo, vem comprando milhares de armas do Irã para sua guerra na Ucrânia.
Teerã tenta mostrar força enquanto luta contra o terrorismo interno e mantém confrontos indiretos com EUA e Israel por causa da guerra na Faixa de Gaza, disseram especialistas. O Paquistão, que não está no Médio Oriente e não tem qualquer ligação com a guerra na Faixa de Gaza, foi tragado demonstração de força do Irã.
Paquistão e Irã há muito que se queixam de que os separatistas do grupo militante sunita Jaish al-Adl são capazes de usar o solo um do outro para lançar ataques transfronteiriços. O Jaish, luta pela independência do Baluquistão, uma região que abrange o leste do Irã e o oeste do Paquistão e é considerado inimigo pelos dois países, que compartilham mais de 900 quilômetros de fronteira.
“A atual tensão entre Irã e Paquistão é administrável e é altamente improvável que se transforme numa questão significativa, tendo em conta as relações estreitas que os dois países promoveram nos últimos anos”, disse um analista iraniano.
Os ataques iranianos nos três países ocorrem num contexto de crescente pressão interna para agir contra os militantes sunitas, especialmente depois de um atentado com bomba dentro do Irã no início deste mês – reivindicado pelo Estado Islâmico – ter matado dezenas de pessoas. Também ocorre depois dos ataques liderados pelos EUA no Iêmen contra os houthis apoiados pelo Irã, que têm como alvo navios no Mar Vermelho.
Os meios de comunicação estatais iranianos divulgaram amplamente esses ataques, detalhando inclusivo os tipos de projéteis utilizados.
“O Irã está respondendo à exigência popular de retaliar através de ataques a atores não estatais”, disse Sanam Vakil, director do Médio Oriente e Norte de África do Royal Institute of International Affairs de Londres. Mas também está “definindo as suas linhas vermelhas em resposta à guerra na região”.
Fonte: Valor Econômico