Israel retirou milhares de soldados da Faixa de Gaza após pressão dos Estados Unidos para mudar as táticas do conflito para uma guerra mais focada em alvos militares e a fim conter as baixas civis. A medida, contudo, trouxe preocupações entre algumas autoridades israelenses.
A decisão de retirar uma das quatro divisões de Israel da Faixa de Gaza dá ao país mais possibilidades para atuar em outros pontos críticos da região, como na Cisjordânia. Contudo, ao retirar parte de seus soldados da Palestina, Israel corre o risco de minar seu objetivo estratégico de acabar com o Hamas, expondo o país a novos ataques.
Israel tem atualmente três divisões lutando em Gaza, segundo o porta-voz das Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês), Daniel Hagari. A maior concentração de tropas está no sul da região, em Khan Younis, onde o país começou a ofensiva a partir da parte oriental da cidade e agora ruma ao sul. Hagari disse que a 36ª divisão foi transferida para descansar e treinar.
Giora Eiland, um general israelense aposentado, disse que a mudança de tática de Israel permitirá que mais civis retornem ao norte de Gaza. “Pagamos um preço muito alto por algo que não terá sentido em pouco tempo”, disse ele.
O bombardeio da Faixa de Gaza por Israel, combinado com amplas operações terrestres, provocou muitas baixas de civis palestinos. Os EUA apelaram a Israel para que reduzisse as tropas em Gaza e permitisse que uma parte dos cerca de 90% dos habitantes da região que foram deslocados pela guerra regressassem às suas casas.
Não está claro se a divisão que retornou a Israel seria posteriormente transferida para Gaza, mas a medida mostra que o país cedeu à pressão internacional.
Ahron Bregman, cientista político do King’s College em Londres e antigo oficial do Exército Israelense, disse que, a não ser que consiga uma vitória total sobre o Hamas, Israel terá que se satisfazer com objetivos menos ambiciosos.
“Mesmo que Israel nunca admita oficialmente, o objetivo de acabar com o Hamas não pode ser alcançado, nem agora nem no futuro”, disse ele.
Netanyahu: guerra “continuará até o fim”
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, disse na quarta-feira (17) que mantém os objetivos originais da guerra, que é acabar com o Hamas. “Esta guerra continua e continuará até o fim, até atingirmos todos os nossos objetivos”, disse Netanyahu.
A retirada das tropas israelenses ocorre no momento em que Israel enfrenta pressão em outras partes da região, como Cisjordânia, local de três ataques israelenses na manhã de quarta-feira, que mataram pelo menos nove palestinos. Desde o início da invasão de Gaza, as tensões aumentaram no território ocupado, onde os palestinos enfrentaram aumento no desemprego após Israel ter fechado a entrada a trabalhadores da Cisjordânia.
Eiland disse que, embora Israel tenha procurado impedir a abertura de uma frente militar na Cisjordânia, pode não ter a capacidade de impedir outra revolta em grande escala na área. “Taticamente, temos muito sucesso na Cisjordânia, mas não creio que Israel possa impedir uma revolta popular”, disse ele.
Os EUA colaboraram com a Autoridade Palestiniana, que governa a Cisjordânia. Os esforços para criar um Estado Palestino são fundamentais para pôr fim ao conflito no Oriente Médio, disse na quarta-feira o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken.
Blinken disse que o desafio é saber se os líderes israelenses estão ou não dispostos a aceitar essa ideia defendida no mundo árabe. “A questão agora é: a sociedade israelense está preparada para se envolver nessas questões?” disse Blinken, no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. “Está preparado para ter essa mentalidade? Isso é um desafio.”
Fonte: Valor Econômico
