A intensa pressão feita por Donald Trump nos últimos meses por juros mais baixos nos EUA não deve surtir efeito tão cedo. Diante de um Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) que se mostra cada vez mais preocupado com os riscos inflacionários, o mercado dá a manutenção dos juros na faixa de 3,50% a 3,75% como certa na quarta-feira. Assim, na estreia de Kevin Warsh como novo presidente do Federal Reserve, agentes devem buscar sinais sobre a trajetória futura da política monetária, especialmente na divulgação trimestral do Sumário de Projeções Econômicas (SEP), no gráfico de pontos (“dot plot”).
Com os riscos inflacionários ainda latentes nos EUA, à medida que os principais índices de inflação se mantêm muito acima da meta perseguida pelo banco central americano, analistas destacam que a trajetória dos juros deve seguir fortemente condicionada ao mercado de trabalho.
O relatório de empregos (“payroll”) mostrou a criação de 172 mil vagas em maio, bem acima da expectativa de consenso do mercado de 80 mil vagas, e a taxa de desemprego ficou inalterada em 4,3%. A surpresa com o mercado de trabalho levou os futuros dos fed funds, compilados pelo CME Group, a indicar 70% de chance de pelo menos um aumento de 0,25 ponto percentual nos juros até o fim do ano nos últimos dias.
Como medida do tamanho da reviravolta nas expectativas dos agentes financeiros, antes da guerra, o mercado precificava entre dois e três cortes de juros ao longo dos 12 meses seguintes.
Em entrevista ao Valor, Benjamin Mandel, sócio-fundador e chefe de pesquisa da Jubarte Capital, diz acreditar que há risco de o gráfico do Fed mostrar um ponto mediano com uma alta nas taxas ainda neste ano. Em linhas gerais, o dot plot compila a visão individual dos 19 membros do Fomc sobre o rumo dos juros. Ele é visto pelo mercado como uma referência sobre as opiniões dentro do Fomc, e há dúvidas sobre se Warsh acabará com sua divulgação.
Para Mandel, que também já foi economista do Fed, os membros do Fomc avaliarão que os riscos para o mercado de trabalho diminuíram ao longo dos últimos meses, o que reduz a chance de uma flexibilização monetária, embora ele ainda não possa ser classificado como “aquecido”, visto que a taxa de desemprego segue estável.
“Nos últimos meses, basicamente há uma taxa de desemprego estável, porque o lado de oferta e o lado de demanda estão oscilando em paralelo. O número de contratações talvez não seja uma base para o Fomc olhar e reagir em relação à política monetária”.
Para Mandel, a falta de clareza sobre o grau de transmissão do choque do petróleo para o núcleo da inflação também justifica uma postura de “esperar para ver”. “Viramos de riscos de cortes de juros para um risco de alta de juros. Mas nosso cenário-base é de juros estáveis ao longo do ano e, quem sabe, talvez entrando no ano que vem.”
O Morgan Stanley também observa que houve surpresa com a aceleração recente do mercado de trabalho. “Embora ainda existam pontos de fragilidade e incerteza no mercado de trabalho, a taxa de contratação acelerou em 2026 e mais do que nós (e provavelmente o Fed) previmos”, diz o economista-chefe, Michael Gapen, e sua equipe, em nota. “O aumento de 188 mil vagas de trabalho na média móvel de três meses é claramente uma melhoria e deve reduzir as preocupações dos dirigentes do Fed sobre os riscos de queda para o mercado de trabalho”, apontam.
Gapen e sua equipe pontuam que a maioria dos membros do Fomc já vinha defendendo a retirada do viés de afrouxamento monetário (“easing bias”) do comunicado diante do aumento dos riscos inflacionários, e os dados do mercado de trabalho de maio reforçaram essa avaliação. “Interpretamos este relatório de emprego como uma indicação de que o Fed pode e irá eliminar seu viés de afrouxamento em junho”, afirma Gapen.
A preocupação com o rumo dos juros ficou transparente na última decisão do Fed, que mostrou o maior grau de divergência entre os membros desde 1992. A discordância foi centrada na linguagem descrita como um “viés de flexibilização” no comunicado, a qual indica que o próximo movimento seria um corte, com três dirigentes votando para retirá-la. Há um consenso no mercado de que o termo será removido.
Desde então, os membros do comitê sinalizaram amplamente em discursos recentes que as taxas devem permanecer paradas por um tempo, e também passaram a discutir a possibilidade de o próximo movimento ser de um novo aperto da política monetária.
Dado o tom dos discursos e o comunicado da decisão de abril, há sinais de que as autoridades do Fed estão em meio a uma mudança para uma postura de política monetária mais neutra, avalia o economista-chefe do Wells Fargo, Tom Porcelli, e equipe.
“Warsh inicia seu mandato no Fed durante uma espécie de transição.” A inflação está confortavelmente acima da meta do Fed e este não é um ambiente em que o Fed esteja com pressa para continuar afrouxando a política monetária, afirma. “Manter-se à margem por enquanto nos parece prudente.”
Porcelli reconhece que o mercado de trabalho encontrou uma base mais robusta, mas não está superaquecido. A taxa de desemprego está próxima da maioria das estimativas de pleno emprego, o crescimento salarial é moderado, em torno de 3,5%, e os principais indicadores de demanda por mão de obra, como a oferta de vagas, seguem estáveis. “A justificativa para aumentos nas taxas de juros não nos parece convincente. Uma mudança de postura em relação aos cortes não significa que o Fed esteja pronto para aumentar as taxas também.”
Fonte: Valor Econômico