A sociedade americana está profundamente fraturada, como demonstram todas as pesquisas de opinião. Mas há um tema, um único, em que subsiste um relativo consenso, de acordo com a pesquisa YouGov/Economist com questionários coletados entre 5 e 8 de abril: 70% dos respondentes são contra um terceiro mandato para o presidente Donald Trump. A pesquisa tem 68 perguntas. Em nenhuma outra foi atingido percentual semelhante.

Nem mesmo entre os eleitores registrados que declaram ter votado no republicano em 2024 a ideia transita bem. Nada menos que 53% acham que Trump precisa sair em 2028, conforme determina a constituição americana, que veda a candidatura de quem já foi eleito duas vezes para a Casa Branca. Somente 33% dos trumpistas querem essa transgressão.

Este nível de rejeição popular torna inteiramente inviável a Trump obter consenso político para alterar a carta, algo que envolve não apenas uma maioria de dois terços nas duas casas do Congresso como também endosso equivalente nos Estados. Para concorrer de novo, Trump terá que rasgar a Constituição de uma forma ou de outra, e neste ponto a pesquisa sugere que o americano médio está alarmado: 52% dos pesquisados crêem que Trump tentará fazer isso.
Trump acostumou a sociedade americana e está acostumando o mundo a pensar o impensável, em seus atropelos desde o início do mandato, mas há um furo em sua armadura, ao menos por enquanto. Existe uma falta de sintonia entre a agenda do autocrata que governa os Estados Unidos e a angústia nacional. Essa falta de sintonia certamente pesa para tamanha rejeição a uma ruptura da alternância.
A inflação é considerado o principal problema do País, quando os americanos são obrigados a escolher um único fator.

Em relação a este tema, 45% dos pesquisados desaprovam a atuação de Trump e apenas 20% a apoiam. A maior taxa de apoio ao governo está na sua política imigratória de linha-dura, mas esse é apenas o sétimo tema nas preocupações nacionais, atrás não só da inflação mas do emprego, saúde, carga de impostos, mudança climática e direitos civis.

O campo da pesquisa se deu três dias depois do bombástico anúncio de Trump de uma guerra tarifária contra o resto do mundo, feito no dia 2, apelidado por ele de “dia da libertação”. Idas e vindas marcaram essa guerra desde então, com uma escalada de sanções contra a China e a suspensão temporária das punições a outros Países, enquanto supostas negociações se desenrolam. Mas no momento em que a pesquisa foi feita a imagem que persistia na opinião pública era a do presidente exibindo uma grande tabela com as taxações, país por país.
A repercussão do anúncio não foi ruim apenas no mercado acionário. Para 56% dos pesquisados, Trump foi “longe demais” em sua guerra tarifária. Menos da metade, ou 27%, consideraram a medida adequada.

Não é para menos: medidas protecionistas são inflacionárias a curto prazo, como o próprio Trump já reconheceu em mais de uma ocasião. Para 51% dos pesquisados a inflação vai aumentar.

Um sinal do fracasso de público pode ser detectado em mais um indicador do levantamento: 60% dos pesquisados disseram considerar negativo o noticiário sobre o presidente, e Trump desde o início do ano é o gerador de notícias, jamais está a reboque delas.

O corolário da guerra tarifária está no predomínio da avaliação negativa sobre a positiva tanto na avaliação sobre Trump quanto na avaliação de governo.


Trump ainda está muito longe de ser um presidente impopular, sua aceitação ronda os 40%. Se o presidente Luiz Inácio Lula da Silva desfrutasse hoje dos índices de aprovação do americano os marqueteiros do Palácio do Planalto estariam animados. Mas a curva é ruim para a Casa Branca, sobretudo na semana do anúncio das tarifas.
De acordo com “tracking” de avaliação de governo da Rasmussen, uma pesquisa consensualmente vista nos Estados Unidos como pró-republicana, o percentual de eleitores que declaravam que “apoiavam totalmente” Trump desceu do patamar de 39% em 26 de março para um piso de 29% no dia 9 de abril. Desde então a taxa se recuperou, atingindo 35% em 16 de abril. Do dia 9 para o dia 16 Trump tirou o pé do acelerador em relação às tarifas, com exceção das direcionadas à China. A rejeição total ao presidente americano permaneceu estável, oscilando de 38% no dia 26 de março para 43% no dia 9, recuando para 39% no dia 16.
A reação da opinião pública na semana das tarifas indica que Trump corre o risco descrito na filosofia grega como “Húbris”, conceito dicionarizado como orgulho exagerado, ambição desmedida, autoconfiança imprevidente, arrogância. Na frase de Eurípedes frequentemente associada a este conceito, os deuses primeiro enlouquecem aqueles a quem querem destruir.
Fonte: Valor Econômico