A Shell disse nesta terça-feira (19) que continua comprometida com o aporte de R$ 3,5 bilhões na Raízen, joint-venture da companhia britânica com a brasileira Cosan . Em março, o montante já havia sido anunciado pelo presidente da Shell no Brasil, Cristiano Pinto da Costa, como noticiado à época pelo Valor. Ontem, o executivo voltou a falar do tema: “Estamos em fase avançada de negociação com todos e confiantes de que vamos ter um acordo até 8 de junho”, disse Costa, em entrevista a jornalistas, após participar do Argus Rio Crude Conference, no Rio.
A Raízen está em recuperação extrajudicial e vem negociando com credores a elaboração de um plano de reestruturação da companhia, que tem previsão de ser apresentado justamente até 8 de junho.
O plano precisa do aceite de ao menos metade dos credores, como informou este jornal em 8 de maio. Pinto da Costa disse que a companhia vem trabalhando com sócios, credores e a administração da Raízen a fim de achar uma solução que funcione para todos os envolvidos no processo. A dívida líquida da Raízen é de cerca de R$ 52 bilhões.
Na visão do executivo, a nova gestão da distribuidora de combustíveis vem realizando um “trabalho excepcional de ‘turnaround’ [reestruturação] operacional” desde 2024, quando foi alterada a estratégia da Raízen. O trabalho incluiu ações como redução de custos, foco nas atividades-chave, venda de portfólio de usinas menos rentáveis e restabelecimento de margens no varejo e da credibilidade da Raízen. “Tem uma série de coisas que estão sendo feitas e que estão se mostrando positivas”, disse Pinto da Costa.
Foram várias as razões que levaram a Raízen à recuperação extrajudicial. Entre os fatores que causaram uma “tempestade perfeita” para a joint-venture, listou Costa, estão a queda de preços internacionais de açúcar e etanol, desaceleração da transição energética, com redução de demanda por biocombustíveis, mercado ilegal de combustíveis, endividamento da Raízen e ciclo de alta da taxa básica de juros (Selic).
Além do aporte da Shell, há a expectativa da injeção de outros R$ 500 milhões pela holding do controlador da Cosan , Rubens Ometto. Porém, a Cosan não fará aporte de capital na Raízen e avalia deixar o negócio após a reestruturação, segundo disse Marcelo Martins, presidente da holding em teleconferência com analistas na sexta-feira (15). Espera-se uma diluição da Cosan no negócio. Martins ressaltou na ocasião que ainda não há uma decisão tomada a respeito.
De saída da Shell no fim de julho, Costa ressaltou que seu próximo passo profissional ainda será no setor, mas fora do país. O sucessor de Cristiano Pinto da Costa, João Santos Rosa, assume em 1 de agosto e os dois executivos estão em processo de transição.
No evento, Costa afirmou que o Brasil se mostrou um supridor de petróleo confiável para o mundo, sendo o 10 maior produtor global de petróleo. Porém, avaliou, o país não pode ficar estático e precisa aproveitar o momento em que fluxos de capital estão sendo redirecionados para outras regiões. Um ponto importante é a estabilidade regulatória e fiscal, diante do fato de que o setor de petróleo tem como principal característica investimentos de longo prazo. Outros países, apontou Costa, têm se mostrado competitivos para novos investimentos em petróleo, como Guiana, Suriname, Argentina e países da África.
A adoção do imposto de exportação de petróleo em 2023 e neste ano é ponto a ser observado, disse. Nos dois momentos, a situação era conjuntural, causada por conflitos entre países, salientou. Entretanto, a indústria não foi chamada para conversar e contribuir para enfrentar o cenário mais turbulento. O imposto elevou ainda mais a carga tributária sobre o setor de óleo e gás.
A jornalistas, Roberto Ardenghy, presidente do Instituto Brasileiro do Petróleo (IBP), disse que a entidade trabalha com a hipótese mais provável de que a Medida Provisória (MP) 1.340 caduque sem ser votada no Congresso Nacional. Caso não seja votada pela Câmara e Senado até o dia 7 de julho, a MP perderá a validade.
A medida estabeleceu a primeira subvenção para o óleo diesel nacional ou importado e criou o imposto de exportação de petróleo para financiar o corte de PIS/Cofins sobre o diesel.
Fonte: Valor Econômico