As incertezas em torno da questão fiscal e política no Brasil tem afastado o câmbio doméstico de uma apreciação mais consistente, que poderia levar o dólar para o patamar de R$ 4,50, o que estaria mais em linha com os atuais fundamentos do país. Essa é a avaliação do estrategista-chefe para mercados emergentes do Deutsche Bank, Drausio Giacomelli.
“Se o Brasil tivesse uma perspectiva de realmente entregar a meta de zero déficit, com um arcabouço fiscal confiável, o real deveria estar 10% a 15% mais forte. A moeda brasileira ainda está muito longe dos fundamentos, dos termos de troca, do diferencial de juros. Nosso câmbio deveria estar muito próximo de R$ 4,50 ou abaixo disso”, diz o estrategista em entrevista ao Valor. “Se você me perguntar se há prêmio fiscal e político, eu te respondo que tem, e tem bastante. Acho que é mais de dois dígitos de prêmio.”
Giacomelli diz ter dúvidas sobre a precificação de déficit primário de 0,8% do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano. “Há muita gente com esperança de um número melhor do que 0,8% porque a arrecadação tem sido boa”, afirma. “Por isso, é preciso ver como está a leitura dos grandes ‘players’, que são aqueles que fazem o preço. Porque se o investidor que faz preço está apontando para um déficit de 0,5% do PIB e chegarmos em algo acima disso, vamos ter um desapontamento”, diz o estrategista, acrescentando que se o déficit realmente se mantiver em 0,8% do PIB, o câmbio pode ficar mais próximo de R$ 5,00.
Embora haja essa incerteza em torno da seara fiscal, Giacomelli diz ter uma visão mais otimista para o real. “Estamos há algum tempo construtivos com o real, principalmente na relação contra o euro, porque tem se mostrado mais estável, enquanto o dólar tem sido uma barreira mais difícil de superar”, explica.
E mesmo que a Selic continue caindo por aqui e ainda não haja corte das taxas nos EUA, Giacomelli diz que a moeda não deve ser penalizada pela redução do diferencial de juros neste curto prazo. “Se você considerar só o diferencial nominal [dos juros], ele de fato tem recuado, mas se você considerar o diferencial real, o cenário é outro porque a inflação brasileira é a que mais tem caído nos mercados emergentes. Há duas semanas, em termos de ranking do carry, o real era o melhor na nossa distribuição”, afirma. “Ao longo do tempo é claro que o diferencial de juros vai cair mais, você até vai ter um fluxo contrário ao real, mas ao mesmo tempo você vai ter uma recuperação econômica, com fluxo para o mercado de ações, por exemplo.”
Em relação ao dólar, o estrategista diz que a comunicação mais incerta do Fed, com algumas idas e vindas nas falas dos dirigentes do BC americano, deve criar agora uma relutância do mercado em precificar juros mais baixos nos Estados Unidos, o que manterá a moeda americana em níveis elevados. “Principalmente com esses dados recentes mais fortes”, afirma. “Quem investe em câmbio não vai tomar o risco de apostar na fraqueza do dólar e em uma política [monetária] mais frouxa porque o [presidente do Fed, Jerome] Powell está falando isso. Agora há um prêmio de risco por conta dessas mudanças na comunicação.”
Fonte: Valor Econômico


