O desempenho recente dos mercados de ações escancarou o descompasso entre Brasil e Estados Unidos. Depois de uma avalanche de capital estrangeiro no primeiro trimestre, o Ibovespa passou por uma realização na última semana e se afastou da máxima histórica de 199.354 pontos, enquanto os índices americanos avançaram na direção dos recordes, sustentados pela alta de 2,43% do setor de tecnologia nos últimos sete pregões – movimento que levou o S&P 500, principal referência de Wall Street, a avançar 1,06% no período.
A melhora nas projeções de analistas para as “big techs” ajudou a restaurar o apetite dos investidores pelo setor, ao reativar um fluxo que estava estremecido desde o início do ano. A mudança também estimulou uma realização de lucros na bolsa brasileira, após um período de forte valorização. Com isso, parte do mercado passou a se perguntar se as empresas de tecnologia americanas podem drenar recursos que vinham sendo destinados ao mercado acionário local.
Segundo profissionais ouvidos pelo Valor, o redirecionamento de fluxo para ativos dos EUA parece “pontual”, em um momento em que os “valuations” (avaliações de mercado) voltaram a indicar um ponto de entrada mais atrativo nas techs americanas.
De olho nas oportunidades, algumas gestoras realizaram ajustes nas carteiras, reduzindo ou zerando a posição em petroleiras e aumentando a alocação em ações nos Estados Unidos.
Mesmo antes de o Irã anunciar a reabertura do Estreito de Ormuz – movimento que durou pouco, mas provocou uma forte queda dos preços do petróleo em 17 de abril -, o sócio e gestor de renda variável da Reach Capital, Henrique Lara, conta que a casa já havia zerado as posições em petrolíferas e, inclusive, passado a ficar vendida (apostando na queda dos papéis) por um tempo.
A movimentação incluiu a retirada de Prio e Petrobras do portfólio e, no exterior, levou à exclusão de Chevron e ExxonMobil, além de empresas da cadeia de subprodutos petroquímicos, abrindo espaço para ações de tecnologia americanas. “Todo dia tem uma atualização nova, e a demanda por GPUs [unidades de processamento gráfico] e semicondutores está brutal. Não há excesso algum; pelo contrário, a falta é maior do que se imaginava. Os resultados das empresas mostram que esse cenário tende a continuar, e o mercado decidiu não esperar o fim da guerra.”
Nessa estratégia, a Reach ampliou a exposição ao segmento de semicondutores, com posições em TSMC, ASML e Nvidia, além de empresas ligadas a terras raras.
De acordo com Lara, no entanto, o movimento atual é “ponderado”, e a migração de recursos dos EUA para mercados emergentes deve continuar. “É um ciclo longo, que deve se estender por alguns anos, mas que ocorre fora das empresas de tecnologia. Nelas, seguimos vendo fluxo positivo e demanda pelas ações, porque o fundamento permanece sólido.”
Já na Norte Asset Management, ainda que as expectativas para os resultados das empresas de tecnologia americanas tenham melhorado, o sócio Rafael Furlan diz que a casa não aumentou a exposição direcional ao mercado dos EUA.
“O que fizemos recentemente foi vender um pouco da posição em [empresas de] software, porque achamos que vão ser prejudicadas pela IA [inteligência artificial] e porque andaram muito nos últimos dias”, diz Furlan. “Não achamos que a IA vai acabar com os softwares, mas talvez os investidores não vão pagar múltiplos tão ‘perpétuos’ como pagavam antes.”
O executivo destaca, contudo, que a gestora manteve a alocação em empresas vistas como beneficiárias diretas da inteligência artificial, como fabricantes de memória e chips. “A nossa carteira é ‘AI winner’ contra ‘AI loser’.”
Alocações em emergentes seguem abaixo da média histórica e há espaço para novos fluxos”
Na mesma linha, Henrique Lara, da Reach, avalia que as empresas de software devem funcionar, ainda, como provedoras de liquidez para outros investimentos, seja na própria cadeia de semicondutores, seja em outros mercados.
O setor de tecnologia nos Estados Unidos apresentou uma recuperação relevante na última semana, acumulando valorização superior a 3%, enquanto a bolsa brasileira cedeu quase 4%, movimento que ajuda a explicar a rotação global que penalizou os mercados emergentes no curto prazo.
O responsável global pela área de multiativos da Janus Henderson, Adam Hetts, destaca que os indicadores de sentimento e posicionamento da gestora mostraram que as quedas no setor de tecnologia atingiram níveis de capitulação e, por isso, passaram a representar um ponto de entrada “muito atraente”. “Embora o setor já tenha registrado uma recuperação dramática, o crescimento dos lucros continua sendo um forte fator favorável, com potencial para impulsionar ainda mais os ganhos, especialmente entre as empresas de tecnologia de alta qualidade.”
Ainda que a reversão do fluxo para emergentes – e especialmente para o mercado brasileiro – nos últimos dez dias tenha provocado uma queda expressiva da bolsa local, o chefe de mesa de renda variável da Warren, Ricardo Maluf, avalia que esse rebalanceamento é mais tático do que estrutural.
“As alocações em mercados emergentes seguem abaixo da média de longo prazo, e uma reversão à média indica que ainda há muito fluxo para entrar. O pano de fundo por trás desse movimento é a diversificação dos investidores para ativos não dolarizados”, afirma o gestor.
Maluf pondera, ainda, que, além dos fundamentos e do cenário geopolítico, será importante monitorar os resultados das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, em outubro, para entender como seguirão temas como o controle político do orçamento e a capacidade de reeleição do governo atual.
Esse rearranjo de portfólios começou a aparecer nos dados de fluxo. No acumulado dos últimos cinco pregões até sexta-feira, investidores estrangeiros retiraram R$ 7,1 bilhões em ações já listadas da B3 e aportaram apenas R$ 32,1 milhões.
Na avaliação do gestor da Reach, o peso elevado de commodities no Ibovespa e a ausência de uma cesta relevante de tecnologia tornam o mercado brasileiro mais vulnerável em um cenário de arrefecimento da guerra. “Se o foco voltar para tecnologia, o Brasil perde o prêmio geopolítico e fica sem um motor alternativo para compensar”, diz.
Entre os efeitos mais visíveis desse esvaziamento recente de capital foi a queda das ações de bancos. Depois de o setor acumular, em média, alta de 4,36% nos três primeiros meses do ano, alguns papéis de instituições financeiras lideraram as maiores desvalorizações na semana passada, caso das ordinárias do Banco do Brasil, que cederam 6,97%, em virtude também do sentimento mais negativo de analistas em relação ao que foi apresentado no Dia do Investidor da casa.
“Nos Estados Unidos, bancos e construtoras são consideradas ações de valor. O que vimos nos últimos dias é que houve uma rotação de papéis de valor para tech. Isso fez os bancos americanos sofrerem e os daqui sofreram junto”, diz o superintendente de renda variável da SulAmérica Investimentos, Gilberto Nagai. “Teve uma arrefecida do dinheiro para cá, que voltou a ir para techs americanas e isso afetou os bancos locais”, acrescenta.
O executivo da SulAmérica Investimentos afirma que a correção nos papéis de bancos era esperada, especialmente após os preços dos papéis não terem avançado na mesma proporção que os lucros esperados para as instituições financeiras.
“Os bancos estavam apresentando uma perspectiva decente de crescimento de lucro, mas o preço das ações andou muito. É uma realização natural porque os preços ficaram desalinhados em relação ao crescimento dos lucros”, pondera Nagai.
A SulAmérica Investimentos, no entanto, ainda mantém uma alocação em bancos na carteira por acreditar que o setor continuará a aumentar os lucros, além de posições em concessionárias e empresas de infraestrutura. “Antes da guerra, a visão era que os juros iam cair e iríamos ficar nas cíclicas domésticas mais alavancadas [endividadas]. Agora, estamos numa posição mais intermediária. Buscamos ações cíclicas domésticas de empresas que não estão tão endividadas e que estão entregando operacionalmente”, diz.
Por outro lado, Nagai conta que a casa reduziu um pouco da exposição a petroleiras. “Vamos operar ‘underweight’ [abaixo do peso do setor no Ibovespa] mirando preços de petróleo mais baixos no médio e longo prazos”, diz. “Só que não estamos muito alocados porque acreditamos que os preços de petróleo no médio prazo podem ficar mais perto de US$ 80 ou mais o barril”, pondera.
Fonte: Valor Econômico
