Por Rita Azevedo, Valor — São Paulo
11/07/2022 17h15 Atualizado há 13 horas
Apesar do risco crescente e significativo, ainda não é certo que a economia global enfrentará uma recessão, segundo Andrea Damico, economista-chefe da Armor Capital, que participou hoje da Live do Valor.
Para ela, fatores como a política “covid zero” na China, os problemas de fornecimento de gás na Europa e a desaceleração da atividade econômica nos Estados Unidos criam “um quadro de risco de recessão razoável”, mas ainda é difícil afirmar que haverá um declínio na economia do mundo.
Segundo a economista, a principal dúvida em torno de uma recessão é a situação do mercado de trabalho americano, que ainda apresenta sinais fortes. “Ele não desaqueceu. A gente começa a vislumbrar algum desaquecimento no setor imobiliário, nos investimentos e eventualmente uma redução de consumo por perda de poder de compra, mas o mercado de trabalho ainda mostra certa resiliência e força muito grande”, disse Damico. “Em termos de vagas abertas, são mais de 11 milhões, enquanto o número de desempregados é quase metade disso.”
A persistente inflação que se espalhou pelo mundo como consequência da retomada da atividade no pós-pandemia, deflagrou uma rodada de aperto monetário liderada pelo Federal Reserve, o banco central americano. Para Damico, o Fed demorou para entender que os juros deveriam ir para um campo mais restritivo, mas agora já fez o diagnóstico correto e tem adotado medidas para lidar com a situação.
O BC americano enfrenta hoje um “problema muito grave, para não dizer gravíssimo”, ressaltou. “É uma inflação que não é só de commodities, de alimento, de combustível. É a inflação que chegou no núcleo, nos serviços.”
A próxima temporada de balanços das companhias americanas deve mostrar os primeiros sinais de uma desaceleração, segundo ela. “Os resultados devem refletir uma economia que não é mais exuberante como foi, que está ensaiando uma desaceleração, mas que ainda não está em recessão.”
Em relação ao Brasil, um dos principais impactos desse cenário será nos preços das commodities. “Só o fato da gente deslumbrar um crescimento mais fraco [da economia global] já afetou razoavelmente os preços”, disse Damico, destacando a relevância desses produtos para o país. “Seja na área de investimentos, na indústria ou no agronegócio, seremos afetados se as margens das commodities cederem mais.”
Com preços mais baixos das commodities, também é esperada uma depreciação no preço de equilíbrio do real. “Se antes a gente tinha um câmbio equilibrado ao redor de R$ 5,20 ou R$ 5,30, com uma queda adicional de petróleo talvez o câmbio equilibrado seja de R$ 5,30 ou R$ 5,40”.
Com isso, o país poderá não capturar todo o benefício na inflação que as commodities mais baixas poderiam oferecer. “Por outro lado, por estarmos num ciclo de aperto monetário, o real poderá ter uma perfomance relativa, em relação a outras moedas”, explicou.
A expectativa da economista é que o Banco Central eleve a taxa Selic em meio ponto percentual, para 13,75%, na próxima reunião e que encerre o ciclo de altas. Um eventual aumento dos juros nos Estados Unidos, disse ela, não deve demandar novas altas pelo Banco Central brasileiro. “O que eu acho que pode fazer o BC elevar mais juros é se, dentro desse contexto internacional, acontecer um fortalecimento adicional do dólar, e o risco fiscal aumentar por aqui, elevando os prêmios de risco.”
A manutenção da inflação de serviços junto a um “cenário eleitoral mais complicado” também podem interferir no “plano de voo do BC”, segundo a economista. “A dúvida do mercado é quão responsável o próximo presidente será do ponto de vista fiscal. Independente de quem irá vencer, não está claro qual será a política fiscal do próximo governo.”
Fonte: Valor Econômico