Por Matheus Prado — De São Paulo
29/08/2023 05h01 Atualizado há 4 horas
Com cerca de R$ 32 bilhões sob gestão, a Absolute está comprada em bolsa local mesmo após o avanço recente, mas prefere ações mais defensivas. Em entrevista ao Valor, Christian Faricelli, sócio e gestor de ações da casa, afirma que sua visão para o mercado doméstico segue positiva no médio prazo porque acredita que as revisões de lucro para baixo estão no fim e as empresas que conseguirem entregar bons números devem avançar.
Estruturalmente, está mais otimista com a bolsa americana. E o executivo lista alguns motivos para isso, como a força do PIB americano e a expectativa por uma melhora na produtividade das companhias por conta de aplicações de inteligência artificial. “Nossa impressão é que os EUA, com renda fixa e variável atrativas, vão enxugar a liquidez do mundo. Qual o sentido de investir na renda fixa brasileira se a americana entrega bons retornos e a margem entre as duas está caindo?”, diz.
Valor: A Absolute participou do movimento de alta do mercado?
Christian Faricelli: Depois de um início de governo atribulado, o mercado começou a entender que, apesar da narrativa negativa, não havia espaço para grandes retrocessos, o Congresso segurou muita coisa. O ministro Fernando Haddad [Fazenda], que tem se aproximado de interlocutores importantes do mercado, também tem superado as expectativas. E o arcabouço fiscal, mesmo não sendo o ideal, não explode a dívida do país. Tudo isso, somado a um PIB resiliente e inflação controlada, melhorou o humor dos agentes. Ademais, havia um ponto técnico de entrada importante, já que o posicionamento em bolsa estava baixo – multimercados zerados ou vendidos, e os de ações com caixa. Aumentamos nosso posicionamento e o mercado aumentou também, uma parte com medo de ficar de fora do movimento de alta.
Valor: E como está esse posicionamento agora?
Faricelli: Nos fundos macro e ‘long bias’, a alocação em bolsa local está em linha com o histórico, mas com carteira defensiva. Estamos expostos, entre outras coisas, ao setor de transportes e a exportadoras de petróleo. Também gostamos bastante do setor de ‘utilities’ e acreditamos que está barato tanto no absoluto, quanto no relativo [contra a NTN-B]. A Eletrobras está especialmente descontada, mas existem problemas macro que estamos monitorando. Temos ainda uma posição grande em Sabesp, por estar barata e com expectativa de que a privatização avance. A perspectiva de o processo ocorrer antes da eleição municipal parecia muito baixa, mas agora a questão política parece estar ajudando. Tenho conversado com uma série de agentes públicos envolvidos no trâmite e passei a acreditar que deve ser concluído antes da eleição. Estamos muito otimistas. Em algumas empresas, por outro lado, temos posição menor do que teríamos por conta dos riscos da reforma tributária, principalmente os segmentos que têm menos capacidade de repassar preços, como é o caso dos shoppings. A reforma vai ser boa para o país, mas com certeza teremos vencedores e perdedores na bolsa. Também estamos vendidos em alguns papéis que podem sofrer com o possível fim do juro sobre capital próprio [JCP].
Valor: Continuam otimistas com o mercado local?
Faricelli: Seria de grande ajuda o cenário externo acalmar para o investidor ter mais conforto. Minha visão é positiva porque acredito que as revisões de lucro para baixo estão chegando ao fim. Assim, as empresas que conseguirem entregar bons números terão espaço para avançar. A queda do juro e da inflação ajudam muito. Pode haver melhora nas margens das empresas e, assim, existem muitas empresas boas e preços razoáveis. Quando a Selic estiver abaixo de 10%, devemos ainda ter um fluxo de pessoas físicas. Nossa equipe macro acredita que, a depender do comportamento do PIB, o juro básico terminal pode ficar no patamar dos 7%, partindo do princípio de que o juro precisará ir abaixo do neutro para acelerar a economia. A taxa recuaria pelos motivos errados, mas a bolsa se beneficiaria.
Valor: Estão otimistas com o mercado acionário global?
Faricelli: Estamos com uma cabeça diferente do consenso, otimistas com bolsa americana, o que gerou bons retornos. Chegamos a praticamente zerar a posição, mas, após a correção dos últimos dias, voltamos a comprar. E continuamos estruturalmente otimistas por alguns motivos: o PIB dos EUA está forte; temos impressão de que o Federal Reserve não irá subir muito mais os juros; e as empresas americanas devem melhorar produtividade e margens com aplicações de inteligência artificial.
Valor: O que pode atrapalhar?
Faricelli: O principal risco é a inflação ficar descontrolada e o Fed precisar subir mais os juros, mas a cada mês que passa esse temor cai. Além disso, como as taxas subiram muito recentemente, a renda fixa ficou atrativa e compete no curto prazo, mas não muda a visão estrutural. Caso a inflação fique razoavelmente mais alta do que a meta nos próximos meses, o que acreditamos que vai ocorrer, investidores buscarão ativos que ofereçam proteção. E, na nossa opinião, os melhores ativos para esses momentos são os ativos reais que conseguem repassar inflação, como as TIPS [NTN-Bs americanas] ou a bolsa.
Valor: A bolsa americana não está cara?
Faricelli: Houve mudança na composição dos índices com a ascensão das empresas de tecnologia, o que provoca mudança dos múltiplos. E, tendo em vista que o mundo imprimiu dinheiro nos últimos três anos e depois sofreu pressões inflacionárias – mas, mesmo assim, os bancos centrais, principalmente o Fed, conseguiram controlar o caos com 5% de juros -, entendo que pode começar uma conversa sobre redução do prêmio de risco para investir em bolsa.
Valor: A China preocupa?
Faricelli: China é muito difícil de ler e tem até perdido força como tese de investimento de longo prazo. Durante o ano, até chegamos a ter visão positiva em termos táticos, mas agora estamos pessimistas. A questão demográfica é um problema, o setor de habitação está bem ruim, os preços já não estão tão atraentes. Até discutimos se, em algum momento, o país pode deixar de ser investível por conta de questões geopolíticas.
Valor: E isso atrapalha o Brasil?
Faricelli: O Brasil pode ficar com uma fatia maior da ‘pizza’ de emergentes. Mas essa pizza pode ficar menor. Nossa impressão é a de que os EUA, agora com renda fixa e variável atrativas, podem enxugar liquidez do mundo. Qual o sentido de se investir na renda fixa brasileira se a americana entrega, atualmente, bons retornos e a margem entre as duas está caindo?
Valor: Papéis ligados às commodities podem avançar sem China?
Faricelli: O cenário para petróleo parece razoável, com os preços da commodity em bom patamar e as empresas descontadas. Proteína animal pode surfar com a mudança de modelo na China e o crescimento do poder aquisitivo da população. E o setor de papel e celulose tem uma boa história para prazos mais longos, com a transição do plástico para papel. Para as metálicas, o cenário parece mais difícil. No entanto, os preços do minério de ferro não refletem isso, o que faz com que algumas empresas pareçam descontadas. Depois de muito tempo, voltamos a ter exposição à Vale. A empresa teve problemas micro nos últimos anos e, por isso, ficou atrás dos pares. Agora, acreditamos que está perto de um ‘turning point’ e a entrada da Cosan pode ajudar em questões estratégicas.
Fonte: Valor Econômico
