Com o resultado do ano-safra 2025/26, a Raízen registrou o terceiro maior prejuízo de um ano fiscal em dez anos entre companhias de capital aberto. A empresa é protagonista da maior recuperação extrajudicial (RE) em curso no país e, no último ano fiscal, encerrado em março, já anunciou desinvestimentos que somam R$ 12 bilhões, parte da estratégia de simplificação de portfólio adotada pela companhia depois de um período de tentativa de diversificação.
A última linha do balanço da Raízen só não é pior do que a registrada por Petrobras e Vale, de R$ 35,1 bilhões e R$ 45,9 bilhões, respectivamente, ambas em 2015, segundo o Valor Data. O mercado reagiu ao balanço e as ações da companhia recuaram 5%, cotadas a R$ 0,38 ontem na B3. No ano, a queda é de 53,09%.
Joint venture entre Cosan, conglomerado de Rubens Ometto, e Shell, a empresa opera usinas de etanol, açúcar e bioenergia e também atua na distribuição de combustíveis. Em março, protocolou um pedido de RE com dívidas de cerca de R$ 65 bilhões. No mês passado, o número de credores que aderiram ao plano alcançou 80%.
“Estou confiante de que tanto nossa transformação operacional quanto de estrutura de capital vai nos permitir atravessar esse ciclo atual”, disse ontem o presidente da companhia, Nelson Gomes. A Raízen, afirmou o executivo, aguarda o prazo legal para homologar o plano de RE, o que deve acontecer até setembro.
O último ano-safra, afirmou, um dos mais desafiadores, foi marcado por cenário de instabilidade geopolítica, condições climáticas adversas, volatilidade de commodities e juros elevados. Naquele período, a maior parte do prejuízo, ou R$ 22,5 bilhões, resultou da reavaliação de ativos que a Raízen teve de fazer, sobretudo depois do pedido de RE. A dívida líquida também avançou 69,9% naquele ano fiscal, para R$ 58,2 bilhões.
Na busca por redirecionar o foco para a distribuição de combustíveis no Brasil e de otimizar o negócio de etanol, açúcar e bioenergia, a Raízen já desinvestiu em projetos como o de geração distribuída solar e desativou usinas de etanol e de açúcar menos produtivas.
Já vendemos 20 mi de toneladas de capacidade de moagem. Essa jornada continua”
“Anunciamos desinvestimentos da ordem de R$ 12 bilhões, dos quais quase R$ 5 bilhões já estão em caixa e um pouquinho mais do que R$ 7 bilhões, provenientes da venda de ativos na Argentina, devem entrar até o fim deste ano”, disse Gomes, referindo-se à operação de refino e comercialização de combustíveis vendida naquele país para o grupo Mercuria Energy.
A companhia disse que continuará desinvestindo e que quer encontrar o “tamanho ótimo”, sobretudo para o segmento de etanol, açúcar e bioenergia, que enfrenta situação mais desafiadora. “Já vendemos ou desmobilizamos quase 20 milhões de toneladas de capacidade de moagem. E essa jornada [de desinvestimento] continua, mas sem pressa”, afirmou o presidente.
No último ano-safra, o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) ajustado da distribuição de combustíveis avançou 35,5%, para R$ 5,7 bilhões, mas o de etanol, açúcar e bioenergia recuou R$ 23,9%, para R$ 4,5 bilhões. “Conseguimos avançar na expansão da rentabilidade em combustíveis no Brasil, enquanto o setor de açúcar e bioenergia foi impactado por fatores conjunturais”, disse o diretor de relações institucionais Phillipe Casale.
A separação entre os negócios, tida como importante pela Cosan, integra o plano de RE, que prevê abrigar na Raízen Combustíveis o negócio de distribuição e na Raízen Energia, a operação de açúcar, etanol e bioenergia.
Analistas do Citi disseram que apesar da melhoria no negócio de distribuição de combustíveis e dos esforços para reduzir investimentos e despesas, os resultados foram fracos porque a alavancagem da companhia, que encerrou o ano-safra em 5,2 vezes o Ebitda ajustado, segue alta e o pagamento de juros segue consumindo ganhos. J.P. Morgan também reconheceu melhora no segmento de distribuição de combustíveis, mas disse que maiores despesas pesaram sobre o resultado da companhia.
Fonte: Valor Econômico


