O tom róseo usado por participantes do mercado para falar do real ficou para trás. A moeda brasileira continua a ser uma grande aposta, especialmente entre os investidores estrangeiros. No entanto, a revelação dos áudios que ligam o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, ao banqueiro Daniel Vorcaro estremeceu parte da confiança que os agentes de mercado tinham no real. Assim, ainda que grandes bancos mantenham recomendação favorável para a divisa brasileira, o curto prazo tende a ser marcado por mais cautela e volatilidade.
O real esteve entre os piores desempenhos da semana. O processo de reprecificação dos juros globais e a aversão a risco nos mercados deram força ao dólar de forma generalizada. No entanto, a piora na percepção de risco no Brasil intensificou o movimento de desvalorização do real. No acumulado da semana, o dólar escalou 3,54% frente ao real; avançou 1,61% em relação ao peso colombiano; e subiu 0,93% frente ao peso mexicano.
Entre os locais, a sensação é de cautela máxima com o câmbio. Mesmo antes de toda a crise envolvendo Flávio Bolsonaro estourar, havia uma sensação de maior desconforto entre os locais diante do nível apreciado do câmbio, com o dólar testando ficar abaixo de R$ 4,90. O risco político, porém, trouxe à tona um motivo adicional de cautela para os investidores domésticos ao antecipar o “trade” eleitoral.
Houve, na semana, uma redução adicional da exposição dos investidores à moeda brasileira. De acordo com um broker, dados da B3 sobre os mercados de derivativos de câmbio indicam que os fundos locais reduziram em US$ 2 bilhões as posições compradas em real (aposta na valorização da moeda brasileira) contra o dólar nos cinco dias encerrados na última quinta-feira. O estoque total da posição ainda ronda US$ 7 bilhões, sendo que um mês atrás o valor estava em torno de US$ 12 bilhões.
Em condição de anonimato, alguns gestores locais mencionaram ao Intraday que “tiraram o pé” da aposta no real e, agora, aguardam um cenário menos turbulento para, talvez, um aumento da exposição à moeda. Para um gestor ouvido em condição de anonimato, ainda é cedo para saber se há uma reversão da tendência positiva para o câmbio doméstico. “Não sei se essa perda de confiança no real é definitiva. Por enquanto pode ser algo temporário.”
Entre os bancos estrangeiros, predomina o otimismo com a moeda, ainda que os riscos eleitorais tenham sido mencionados por todas as instituições financeiras que mantiveram recomendações ou um viés favorável ao real.
Société Générale e Bank of America estão no campo mais otimista. O banco francês encerrou uma posição comprada em real contra o peso mexicano, mas manteve posições compradas em real contra o peso colombiano e contra o euro. Os estrategistas do banco reconhecem um enfraquecimento de Flávio Bolsonaro e a chance de um aumento do apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no curto prazo. “No entanto, apesar da piora do cenário político para os ativos brasileiros, seguimos vendo a moeda e os juros relativamente resilientes, graças ao elevado ‘carry’ do real, à postura cautelosa do Banco Central e ao contexto geopolítico e energético mais amplo.”
No caso do BofA, o banco mantém posição vendida em euro contra o real, ou seja, aposta na desvalorização da moeda única até chegar a R$ 5,50. “Acreditamos que o real deve continuar sustentado por preços mais altos de commodities, juros reais elevados e pela possibilidade de políticas econômicas mais amigáveis ao mercado após as eleições. Os três fatores são positivos para o real. Os riscos incluem uma surpresa monetária mais ‘dovish’ ou estímulos fiscais que piorem as perspectivas eleitorais”, escrevem os estrategistas Christian Gonzalez Rojas e Ezequiel Aguirre.
O J.P. Morgan também manteve um viés mais positivo ao reduzir sua projeção para o dólar no fim deste ano de R$ 5,35 para R$ 5,20. O banco, contudo, não embarcou em revisões mais baixistas, para a casa dos R$ 5,00 — ou até abaixo —, de outras instituições financeiras.
“O ruído político aumentou ainda mais após reportagem da imprensa local apresentar evidências de laços financeiros profundos e de uma relação muito próxima entre a família Bolsonaro e Daniel Vorcaro”, observam os estrategistas do J.P. Morgan. “Isso tem potencial para prejudicar as perspectivas eleitorais de Bolsonaro, especialmente porque sua campanha é fortemente baseada no discurso anticorrupção. Enquanto isso, Lula anunciou novas medidas para amenizar as pressões de preços decorrentes do choque do petróleo, o que pode reforçar o impulso observado nas pesquisas mais recentes.”
Os estrategistas do J.P. observam, ainda, que o posicionamento técnico do mercado indica uma posição comprada em real “bastante carregada” (“crowded”). “A moeda parece relativamente vulnerável a manchetes políticas, principalmente porque a narrativa eleitoral ainda não foi um fator relevante para o câmbio ao longo deste ano e porque o posicionamento já se encontra próximo das máximas históricas registradas no ano passado.”
Também na ponta mais cautelosa, o banco BBVA recorda que o real vinha operando próximo dos níveis mais fortes dos últimos dois anos. “Já havia alguns sinais de alerta, incluindo posicionamento excessivamente comprado na moeda, indicadores técnicos esticados próximos de níveis extremos e indícios de que o BC poderia tentar desmontar posições acumuladas no real. Ainda assim, o elevado ‘carry’ [juros altos] e a diversificação da economia e das exportações davam suporte à moeda.”
O problema, segundo o banco, é que o tema eleitoral tem um efeito binário no câmbio. “Uma vitória de Lula, candidato de esquerda, poderia pressionar os ativos locais, enquanto uma vitória de um candidato de direita seria vista como mais favorável ao mercado ou, ao menos, ofereceria maior chance de consolidação fiscal e poderia trazer força adicional aos ativos brasileiros, incluindo a moeda”, dizem os estrategistas do banco.
Para os profissionais do banco espanhol, embora o pano de fundo macroeconômico e o “carry” continuem fundamentalmente favoráveis ao real, o súbito aumento do risco idiossincrático com o episódio entre Flávio e Vorcaro prejudicou a relação carry/volatilidade, levando investidores a reduzir risco e, consequentemente, provocando saídas de apostas na moeda. “Vemos esse episódio, por enquanto, como um sinal amarelo, e não necessariamente como o início de uma reversão acentuada de tendência. Mas ele certamente serve como lembrete das vulnerabilidades e dos riscos (políticos e fiscais) que podem surgir antes das eleições de outubro.”
Fonte: Valor Econômico


