Quem olha apenas para a valorização de mais de 15% do Ibovespa em janeiro pode ter a impressão de que o bonde já passou. Mas o cenário na bolsa brasileira tem mais nuance. O potencial de valorização (upside) das ações diminuiu, porém resistiu melhor do que a matemática fria sugeriria.
A mediana do potencial de valorização das empresas listadas (com cobertura mínima de três analistas) encerrou janeiro em 14%, recuando em relação aos 22% registrados no fim de 2025 e no menor patamar da série histórica (iniciada em dezembro de 2024).
Esse panorama faz parte de um levantamento inédito do Valor One, plataforma criada pelo Valor para ajudar o investidor a tomar melhores decisões sobre seu dinheiro, com base em relatórios de grandes casas de análise.
Mas a notícia “não tão ruim” para o investidor é que essa queda foi menor do que a alta dos preços. Em um cenário estático, se as ações sobem 15%, o potencial de alta deveria encolher na mesma proporção (ou até desaparecer). O fato de o upside ter se segurado na casa dos dois dígitos indica um movimento fundamental para a sustentabilidade do rali: as casas de análise começaram a revisar seus preços-alvo para as ações listadas na bolsa brasileira para cima.
A matemática do otimismo
Enquanto os preços de tela das ações analisadas subiram, em média, cerca de 10% no mês, os preços-alvo estipulados pelos analistas ainda avançaram cerca de 1%. Pelo movimento lógico, eles deveriam ter sido comprimidos, mas conseguiram praticamente se sustentar de dezembro para janeiro.
E esse ajuste, ainda que pareça marginal, mostra que a janela de oportunidade na bolsa não se fechou. Ou ao menos não se fechou de forma brusca.
O quadro permite inferir que o mercado de ações brasileiro não está subindo apenas por um fluxo especulativo ou de forma indiscriminada. Quando os analistas elevam o preço-alvo de um ativo junto com o preço na bolsa, é provável que a empresa esteja ganhando valor também sob a perspectiva de seus fundamentos.
É como se o rali da bolsa brasileira tivesse um selo de qualidade.
As queridinhas
Mesmo assim, no novo patamar de preços, a seletividade precisa ser uma regra para o investidor de bolsa. O consenso afunilou para teses que inspiram mais convicção entre os analistas e empresas com execução já testada e comprovada.
A Prio segue entre os destaques mensais em termos qualitativos. Com oito analistas cobrindo o papel, a petrolífera mantém 100% de recomendações de compra, mantendo a posição como a ação preferida do setor.
Já a Smart Fit é a unanimidade (com sete recomendações de compra) no setor de ações cíclicas sensíveis ao ambiente doméstico. O ativo surfa o bom momento para os setores de consumo e saúde, mas também apresenta elevada volatilidade.
A ação da Sabesp, que caiu no gosto dos analistas em 2025, vive um momento de reavaliação. Embora o preço-alvo médio tenha subido para a casa dos R$ 152, a forte alta do papel, que avançou 6% em janeiro, comprimiu seu potencial de alta para menos de 8%, exigindo mais cautela de quem for investir neste momento.
Oportunidade ou risco?
Na liderança do ranking de potencial teórico, Hapvida continua isolada com um upside projetado superior a 150%. No entanto, diferentemente das líderes de consenso, esse potencial é fruto da queda das ações e não da revisão de lucros. O ativo recuou quase 12% no mês passado, entre as maiores perdas do Ibovespa.
- Atualmente negociado no patamar dos R$ 11 (com preço-alvo médio de R$ 32,81), o potencial de valorização da ação HAPV3 beira 200%. Mas não é isso que mexe com os investidores. Sob pressão operacional e em meio a uma dança das cadeiras na liderança, o papel da Hapvida segue no clássico cenário de “alto risco, alto retorno” que divide opiniões no mercado.
O rali de janeiro também deixou vítimas da própria euforia. A Vale encerrou janeiro negociando acima de R$ 84 depois de uma alta de mais de 17%, renovando a máxima histórica ao longo do mês e se estabilizando em nível superior ao preço-alvo médio dos analistas (R$ 78,50).
As análises apontam que a ação pode passar por correções que levem à queda de cerca de 7% nos preços até o patamar considerado justo para a mineradora hoje. Por isso, o papel da Vale entrou na zona de “espera”, sugerindo que o otimismo de curto prazo pode ter corrido à frente dos fundamentos da gigante.
Outros destaques entre as ações com maiores potencial de alta incluem os papéis da IRB e Positivo, ambos com projeções de dobrar de valor. Por fim, a varejista C&A indica espaço para valorizar 83% até o preço-alvo médio dos analistas para a ação.
Fonte: Valor Investe
