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Quando chegou ao Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, em 2008, Benjamin Mandel era responsável por analisar o setor externo americano e entender as relações do comércio global com a política monetária do país. Muitos anos depois e com passagens por grandes instituições financeiras globais como Citi e J.P. Morgan, o economista buscou refúgio no Rio de Janeiro, no início da pandemia, e desde então, tenta desvendar os mistérios do ciclo econômico brasileiro e suas diferenças com o americano. “É um processo bem mais complexo do que entender o ciclo da economia dos EUA”, revela.
Atualmente trabalhando como chefe de pesquisa econômica na Jubarte Capital, gestora que tem como sócio o ex-diretor de investimentos da Itaú Asset Management Eduardo Camara Lopes, Mandel classifica a política monetária americana como a “passageira” de um veículo em movimento. No Brasil, contudo, o estado da política monetária é o oposto, já que ela acaba assumindo o papel de “motorista” – algo que soa como novidade para o economista.
“Nos EUA, há uma série de regras de bolso que acabam indicando a tendência da política monetária de uma forma um pouco mais clara. O ciclo no Brasil é um bicho bem diferente. Há outros fatores que entram na equação, como a percepção de sustentabilidade da dívida, que afeta o prêmio de risco dos ativos e a credibilidade das instituições, notadamente do Banco Central. Há muitas camadas diferentes”, diz em entrevista ao Valor.
Na virada de abril para cá, de acordo com Mandel, o ciclo brasileiro entrou em uma tendência de piora, o que levou a Jubarte a diminuir grande parte de sua exposição ao risco local e de forma bastante expressiva.
“Lá por março ou abril, o ciclo virou e parece ter estragado um pouco daquele ambiente favorável do ciclo de negócios do início do ano. Não vemos, no momento, uma perspectiva de melhora, mesmo com um cenário externo um pouco melhor, com as taxas de juros caindo. Ainda temos fatores idiossincráticos e estruturais que pesam. Os fundamentos domésticos pioraram e permaneceram assim. No nosso portfólio, simplesmente estamos correndo menos riscos no Brasil. Diminuímos a exposição de 60% para 20% nos ativos brasileiros, encurtamos posições e compramos algumas proteções.”
Mandel aponta que as posições em bolsa da Jubarte foram praticamente zeradas. Outras, na curva de juros pré e pós-fixada, reduzidas. “O ruim é que preferimos estar mais otimistas sobre este ciclo doméstico. Mas o bom ponto é que isso comprovou a nossa tese de que é possível gerar alfa [retornos] acima do CDI mesmo com zero exposição em ações. Espalhamos nosso risco pelos mercados globais”, diz o economista.
Sobre o momento de divergência da política monetária do Brasil e dos Estados Unidos – o Banco Central do Brasil deve entregar uma alta de 0,25 ponto na Selic em 18 de setembro, mesmo dia em que o Federal Reserve deve cortar a taxa dos Fed funds em 0,25 ponto -, Mandel o classifica como um cenário um pouco excepcional, mas que faz parte deste contexto particular da economia brasileira, que é repleta de idiossincrasias.
“O Brasil é um dos únicos países, fora o Japão, com previsão de juros subindo nos próximos 12 meses. Isso está relacionado aos fatores idiossincráticos do Brasil. Há, por exemplo, o fator da credibilidade. Isso levou o mercado a fazer uma reprecificação importante”, observa o economista, para quem esse fator soa como novidade em relação aos EUA ou a outros mercados desenvolvidos.
Questionado se o BC, de fato, poderia ganhar credibilidade com um aperto adicional da política monetária, Mandel afirma que essa é uma particularidade brasileira que ele não entende tão bem. “É difícil, para mim, compreender. Esse é um jogo de credibilidade que basicamente faz parte do ambiente daqui. Mas houve algumas evidências, nos últimos meses, de que esse poderia ser o caso, observando o reflexo dos ativos. Se vai funcionar ou não, precisaremos acompanhar no valor do real e na inclinação da curva de juros”, afirma.
Por outro lado, no cenário global, a leitura de que os riscos para o crescimento e para a inflação pendem para o lado negativo justifica boa parte das apostas aplicadas [que ganham com a queda das taxas] nos juros americanos, embora Mandel veja 4% como um nível neutro dos juros nominais nos EUA, o que pode sugerir espaço reduzido para cortes pelo Fed.
Fonte: Valor Econômico