Petroleiros em chamas no Golfo Pérsico. Alertas de Teerã para que navios evitem uma passagem marítima crucial. Países ocidentais às voltas para proteger embarcações comerciais. Agora que os embarques de fontes de energia na região se tornam um alvo dos ataques retaliatórios do Irã, o conflito traz à memória a “guerra dos petroleiros” dos anos 1980.
Quando o Irã e o Iraque estavam em guerra, os dois países espalharam minas pelo Estreito de Ormuz e Golfo Pérsico. Dispararam mísseis franceses Exocets e chineses Silkworm contra os petroleiros que passavam. Isso obrigou navios kuwaitianos a trocar sua bandeira pela americana e trouxe 35 navios de guerra americanos em uma campanha para escoltar as embarcações comerciais. Dessa forma, o petróleo continuou a fluir.
Desde que os EUA e a Israel atacaram o Irã, o Irã tem alertado os navios para não passarem pelo estreito, um gargalo por onde passa cerca de 35% do comércio marítimo mundial de petróleo e 20% das exportações de gás natural liquefeito (GNL).
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Pelo menos seis petroleiros já foram atingidos no Golfo Pérsico, o que praticamente interrompeu o tráfego pelo estreito. O Irã também atacou a infraestrutura energética do Catar e da Arábia Saudita. As cotações do petróleo decolaram.
Na terça-feira, o presidente dos EUA, Donald Trump, disse que, “se necessário”, a Marinha americana iria escoltar os petroleiros pelo estreito “o mais cedo possível”. Além disso, disse que a US Development Finance Corporation, uma agência do governo, forneceria seguros de risco e garantias para os petroleiros navegando pelo Golfo Pérsico “a um preço bem razoável”.
Os preços do petróleo recuaram depois dos anúncios, mas houve poucos detalhes sobre os planos e como eles poderiam ser postos em prática a tempo e na escala necessária para evitar um novo choque nos mercados de energia.
Helima Croft, ex-analista da CIA e que hoje trabalha no banco de investimento RBC Capital Markets, minimizou a importância da proposta de Trump como “provavelmente ainda no estágio de ‘conceito de plano’”.
Especialistas em guerra naval dizem que os destróieres e aviões necessários para fazer escoltas não estariam disponíveis de imediato, já que estão ocupados participando dos ataques ao Irã.
De acordo com Joshua Tallis, do Center for Naval Analyses, é “improvável” que a Marinha dos EUA tenha condições de defender navios comerciais “nos próximos sete a dez dias”. A escolta poderia ser feita “apenas após a fase inicial de grandes hostilidades”, acrescentou, e quando uma maior parte da capacidade iraniana de ataque a navios tiver sido destruída.
Uma operação de escolta seria “difícil, mas factível”, segundo Mark Montgomery, que foi comandante de um grupo de ataque de porta-aviões dos EUA. Ele estima que levaria até duas semanas para as condições ficarem favoráveis e que isso “causaria uma redução na quantidade de ataques que os EUA seriam capazes realizar”.
De acordo com John Miller, que foi comandante da Quinta Frota dos EUA, embora o país provavelmente tenha navios suficientes na região para começar a fazer escoltas, eles precisariam lidar com “mísseis antinavio, drones e pequenas embarcações rápidas” e quaisquer minas que o Irã venha a colocar.
Grande parte do petróleo embarcado do Golfo Pérsico vai para a China, portanto o plano de Trump também poderia ser bem-vindo em Pequim. Nenhum outro país se ofereceu publicamente para aderir ao plano até agora.
Além disso, as leis dos EUA não permitem que navios da Marinha escoltem embarcações que não tenham a bandeira americana, não sejam pertencentes a americanos ou não tenham tripulação americana. No Golfo Pérsico, são poucos os que têm laços formais com os EUA.
O Irã tende a jogar cartas mais fortes na área de energia para forçar um resultado favorável”
A União Europeia discutiu a ampliação de sua missão naval Aspides para o Estreito de Ormuz, segundo quatro fontes que foram informadas sobre as negociações em andamento. No entanto, a proposta, encabeçada pela França, não foi aprovada.
Em contraste com a guerra dos petroleiros nos anos 1980, agora os EUA são uma das partes beligerantes neste conflito, não um terceiro. E, no quadro atual, a guerra já tornou a navegação no Golfo Pérsico extremamente perigosa.
Dos pelo menos seis navios atingidos desde domingo, pelo menos um ataque foi reivindicado pela Guarda Revolucionária do Irã.
O Stena Imperative, de bandeira americana, foi atingido por dois projéteis enquanto estava atracado no porto do Bahrein, enquanto um navio fretado pela Saudi Aramco foi atacado por um drone perto de Mascate, capital de Omã, enquanto transportava 500 mil barris de combustível para um porto saudita. Navios que navegavam pela passagem marítima relataram ter recebido mensagens de rádio aparentemente da Guarda Revolucionária, dizendo-lhes para dar meia-volta.
“É uma enorme dissuasão para todas as empresas, exceto algumas, de navegação e de frete”, disse Martin Kelly, chefe da área de consultoria da firma de inteligência marítima EOS Risk.
O uso dos chamados veículos de superfície não tripulados foi particularmente “letal”, segundo Kelly. Elas atingem os cascos dos navios na linha d’água, “causando entrada máxima de água”. E normalmente atingem as embarcações por trás, inundando a casa de máquinas e muitas vezes afundando-as.
Entre as “flechas na aljava do Irã” à disposição para outros ataques também há embarcações rápidas de ataque costeiro, que são lanchas equipadas com foguetes e pequenos mísseis, segundo Tallis.
O Irã ainda não lançou minas navais, mas mantém um dos maiores estoques globais, que vão desde antigas minas de contato russas até dispositivos propelidos por foguetes.
De acordo com Tallis, Teerã poderia lança-las usando “dhows” – embarcações mercantes de proa dupla que são comuns na região. Elas também poderiam ser lançadas por duas ou três pessoas nas lanchas rápidas de ataque Boghammar, segundo Montgomery, o ex-comandante do grupo de ataque de porta-aviões.
A capacidade de varredura de minas da Marinha dos EUA provavelmente também seria limitada, segundo especialistas – em parte porque há outras necessidades operacionais e também porque “a varredura de minas é um conhecido ponto fraco das Forças Armadas dos EUA”, disse Montgomery.
Os EUA têm apenas três navios de combate litorâneo na região que foram convertidos em caça-minas. Eles transportam helicópteros MH-60 e veículos de superfície não tripulados equipados com sonares caça-minas.
Forças especializadas da Estônia, França, Reino Unido, Japão e Coreia do Sul poderiam ser chamadas para limpar o mar das minas, mas os recursos desses países levariam tempo para chegar.
A ideia de Trump de entrar com apoio nas apólices de seguros é “nova”, disse Tallis, mas “resta saber com que rapidez e eficácia os EUA podem criar um seguro abrangente e confiável contra riscos de guerra”. Ainda não há detalhes sobre quem se qualificaria e quais “países de bandeira” e empresas o desejariam.
Teerã tem mais do que apenas minas. Além de drones armados, o Irã tem mísseis de cruzeiro antinavio chineses C-802 e mísseis superfície-superfície; uma pequena frota de submarinos a diesel de construção russa capazes de disparar torpedos; e um número indeterminado de minissubmarinos norte-coreanos.
Jim Lamson, ex-analista da CIA e hoje na James Martin Center for Nonproliferation Studies, estima que a Marinha e a Guarda Revolucionária do Irã tenham “na ordem de milhares de mísseis de cruzeiro antinavio e centenas de lançadores”.
Um dos objetivos da estratégia do Irã de interromper a navegação dos petroleiros é “tentar provocar indignação nas capitais aliadas e parceiras para tentar impor uma pressão diplomática sobre os EUA”, disse Tallis.
Por sua vez, Clayton Seigle, especialista em segurança energética centro de estudos Center for Strategic and International Studies, disse que quanto mais o conflito se prolongar, mais os EUA e o Irã “tendem a jogar com suas cartas mais fortes na área energética para forçar um resultado a seu favor”. (Tradução de Sabino Ahumada)
Fonte: Valor Econômico
