A incerteza com os rumos da política econômica e a piora do risco fiscal têm levado o mercado a exigir taxas de juros mais altas para comprar títulos públicos de longo prazo. O juro real – que desconta a inflação e é uma das variáveis que melhor expressam a percepção dos investidores sobre o futuro – já ronda os 6,5% em prazos maiores. Em novembro de 2019, a taxa real longa chegou a operar na casa de 3%. O prêmio mais elevado ocorre porque a insegurança sobre a sustentabilidade da dívida pública é embutida nos preços.
No contexto de piora da avaliação de risco do Brasil, o câmbio é pressionado e, consequentemente, a inflação também. Isso tende a levar o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central a manter a taxa Selic nos atuais 13,75% por um período maior do que inicialmente previsto.
No dia da reunião de dezembro do Copom, a taxa da NTN-B com vencimento em agosto de 2050 estava em 6,1857% e, agora, já encosta em 6,5%. De lá para cá, a “PEC da Transição” foi aprovada, o novo governo tomou posse e as discussões sobre reoneração dos combustíveis e salário mínimo ficaram no centro das atenções. Recentemente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou a autonomia do Banco Central e o nível da meta de inflação. As declarações aumentaram ainda mais as incertezas e impactaram os juros futuros.
“O juro real de longo prazo está acompanhando a deterioração da discussão fiscal no Brasil e tem subido desde a pandemia”, afirma Julio Fernandes, sócio e cogestor macro da XP Asset Management.
As atenções se voltam agora para a proposta de arcabouço fiscal que substituirá o teto de gastos e será apresentada até abril, segundo o ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Gustavo Brotto, sócio e gestor da BlueLine Asset, diz estar apreensivo sobre o desenho do instrumento e não tem, no momento, posição em NTN-B. “O novo equilíbrio pode ser algo mais frágil e que não garanta uma trajetória tão positiva do endividamento público.”
Fonte: Valor Econômico