A forte valorização do Ibovespa nos primeiros meses do ano ampliou o descolamento entre as ações de maior peso do índice e as “small caps” da bolsa brasileira. Enquanto papéis de grande peso no índice, como Petrobras, B3 e Vale, concentraram boa parte do rali recente, empresas mais ligadas à economia doméstica ficaram para trás. Agora, com o índice de Small Caps caminhando para o 11º mês consecutivo de desempenho inferior ao Ibovespa – algo sem precedentes em mais de duas décadas -, participantes do mercado começam a enxergar oportunidades em ações que passaram a negociar a múltiplos mais descontados.
O sócio e chefe de ações da Vinland Capital, Rodrigo Andrade, afirma que a gestora reduziu parte relevante da exposição dos fundos quando o Ibovespa se aproximou dos 200 mil pontos, por já não conseguir justificar o “valuation” de algumas empresas que lideraram a alta da bolsa. Para ele, contudo, o desempenho bastante fraco das “small caps” abriu espaço para novas posições, especialmente em setores domésticos mais sensíveis à trajetória dos juros.
“A ‘boca de jacaré’ criada entre o Ibovespa e as ‘small caps’ tende a descomprimir em um cenário de redução do risco geopolítico. Se a questão do petróleo perder força e houver um acordo, esse ‘trade’ deveria começar a andar”, afirma. O índice Small acumula queda de 1,86% no ano, contra valorização de 9,9% do Ibovespa.
Nas últimas semanas, inclusive, a Vinland aumentou a exposição aos segmentos de construção civil e concessões públicas. Entre as apostas da gestora estão Cyrela e Direcional. O gestor avalia que investidores exageraram no impacto potencial da alta do petróleo sobre empresas voltadas à baixa renda, o que abriu espaço para oportunidades após a forte correção recente nesse segmento.
O setor elétrico também ganhou espaço nas posições da casa durante o período de maior tensão geopolítica. Andrade afirma que a Vinland reforçou a exposição à CPFL e mencionou assimetrias atrativas e o potencial de distribuição de dividendos próximo de 10%. “É um setor regulado, com previsibilidade em um cenário mais incerto. Ao mesmo tempo em que ficamos mais defensivos, existe a possibilidade de um dividendo muito elevado”, afirma o gestor. Outros exemplos mencionados por ele são Equatorial e Copel, que também possuem elevado potencial de pagamento de dividendos.
No segmento de consumo, a Smart Fit também aparece entre as principais apostas da gestora, com desvalorização de 19% no ano. Andrade considera a rede de academias uma das principais teses de crescimento consistente da bolsa. No primeiro trimestre, a companhia registrou receita líquida de R$ 2,1 bilhões, alta de 25% na comparação anual.
A leitura mais construtiva para “small caps” não significa, porém, uma mudança radical de posicionamento. Andrade afirma que a Vinland segue mais cautelosa do que no início do ano e continua privilegiando ações de maior capitalização e liquidez na carteira, em meio às incertezas sobre juros, petróleo e o cenário global. “Não gosto de ficar encilhado em posição.”
O executivo também reforça a preferência da casa pelo setor de telecomunicações, posição mantida há anos no portfólio, mesmo com operações de “hedge” (proteção) entre as companhias. “Muitos analistas consideram um setor chato, mas eu discordo completamente”, brinca.
O fluxo criou oportunidades mecânicas em ações menos acompanhadas”
Na visão de Andrade, o segmento oferece previsibilidade de resultados, consolidação adicional após a saída da Oi e características mais defensivas em um cenário ainda incerto. “É um setor que cresce menos do que tecnologia, mas combina resiliência operacional com geração de dividendos.”
Enquanto parte do mercado ainda prefere manter exposição concentrada em ações de maior capitalização, a Charles River Capital aumentou gradualmente a exposição a empresas médias durante a correção recente da bolsa, aproveitando as distorções criadas pela forte entrada de estrangeiros nos papéis mais líquidos do índice e pela saída de investidores institucionais locais da bolsa brasileira.
O sócio-fundador e gestor da casa, Camilo Marcantonio, afirma que o fundo hoje possui cerca de 60% da carteira em empresas com valor de mercado abaixo de R$ 5 bilhões. De acordo com o executivo, o movimento recente de fluxo acabou criando oportunidades “mecânicas” em ações menos acompanhadas pelo mercado.
“O nosso portfólio hoje tem mais empresas médias do que costuma ter porque surgiram mais oportunidades lá. Não é porque estamos projetando juros ou tentando prever mercado”, afirma Marcantonio.
Os principais setores do portfólio da Charles River atualmente são bens de capital, agronegócio, empresas ligadas à base florestal e aço, embora a gestora tenha reduzido parcialmente a exposição ao último segmento após a forte valorização recente das ações. Entre as principais posições da casa estão SLC Agrícola e BrasilAgro, no agronegócio; Dexco e Eucatex, na base florestal; além de Ternium, com listagem em Nova York, e Usiminas, no setor siderúrgico. A gestora mantém cerca de 15% em exposição a empresas internacionais.
Apesar da visão mais construtiva para empresas médias, a Charles River segue seletiva em “small caps” e avalia que a recente correção não tornou o setor de construção civil barato de forma generalizada.
Em nota enviada a clientes, os estrategistas do Bank of America (BofA) também destacam que as “small caps” brasileiras ficaram para trás no rali da bolsa local no acumulado do ano. Enquanto o Ibovespa sobe 9,91% em 2026, o índice de ações de menor capitalização recua 1,86%. Com maior exposição a setores domésticos, principalmente varejo, shoppings e concessões, as “small caps” tendem a ser mais sensíveis à dinâmica dos juros. E, tanto nas taxas prefixadas quanto nas NTN-Bs, há uma dinâmica de aumento dos prêmios de risco no mercado de juros em meio às incertezas inflacionárias e fiscais.
Na avaliação do banco americano, um cenário de desescalada geopolítica pode funcionar como importante catalisador para o segmento, especialmente se a redução das pressões inflacionárias devolver espaço para os bancos centrais retomarem os cortes de juros. Na semana passada, as “small caps” ensaiaram uma recuperação e avançaram 3% em dólar, diante da possibilidade de um acordo entre Estados Unidos e Irã, enquanto o Ibovespa caiu 1%, segundo cálculos do BofA.
O J.P. Morgan também segue construtivo com América Latina e Brasil, avaliando que a região continua funcionando como um “porto seguro” relativo dentro dos mercados emergentes, em meio à guerra no Oriente Médio e à concentração global em ações de tecnologia. Segundo o banco, a recente rotação para empresas ligadas à inteligência artificial nos Estados Unidos e na Ásia aumentou a busca por diversificação em mercados mais expostos a commodities e ações domésticas.
Fonte: Valor Econômico
