Por Alessandra Saraiva e Paula Martini, Valor — Rio
17/01/2023 13h54 Atualizado há 21 horas
O Produto Interno Bruto (PIB) do país deve fechar 2022 com alta de 3%. A previsão é do economista Claudio Considera, coordenador do Núcleo de Contas Nacionais (NCN) do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV/Ibre). Ele fez a observação ao comentar o desempenho do Monitor do PIB, divulgado hoje.
O indicador da fundação, que mensura o ritmo da atividade econômica mensalmente, subiu 0,1% em novembro de 2022 ante outubro, com aumentos de 2% ante novembro de 2021 e de 2,6% no trimestre encerrado em novembro ante mesmo período em 2021. Para o economista, o desempenho do Monitor sugere resultado mais fraco do PIB brasileiro, no quarto trimestre de 2022, cujo resultado oficial será anunciado no dia 2 de março pelo IBGE. No entanto, não deve mudar muito a trajetória positiva anual do PIB. Revisões estatísticas efetuadas pelo IBGE até o terceiro trimestre do ano passado, e a retomada do setor de serviços, ao longo de 2022, devem garantir o aumento de 3% para a economia. Mas Considera faz um alerta: para 2023, o resultado deve ser mais fraco, na atividade econômica.
Ao detalhar as influências no desempenho do Monitor do PIB em novembro, Considera lembrou que várias séries, dentro do PIB calculado pelo IBGE, foram revisadas para cima. No caso do PIB de 2021, por exemplo, a alta da economia para aquele ano foi revisada de 4,6% para 5%. “Houve uma melhora muito grande e uma mudança de estrutura do PIB”, disse Considera.
Ao mesmo tempo, o setor de serviços, que representa mais de 60% do total do PIB pelo lado da oferta, mostrou boa performance, ao longo do ano até novembro. Isso é visível no indicador da FGV, anunciado hoje. No Monitor do PIB, a economia de serviços acumula alta de 4,3% em 12 meses até novembro.
Tais fatores ajudaram a impulsionar o resultado do PIB no terceiro trimestre, que subiu 0,4% ante o segundo trimestre, segundo o IBGE; e devem influenciar o resultado anual a fechar em 3%, acrescentou Considera. “Eu esperava, no começo do ano passado, termos alta do PIB de 2% em 2022”, disse, comentando que o desempenho, caso se confirme, será boa surpresa.
No entanto, esse aumento da economia no ano passado, se confirmado, não deve ser carregado inteiramente para 2023. Considera notou que sinais de enfraquecimento da economia são perceptíveis no quarto trimestre, e isso pode ser visualizado no Monitor do PIB de novembro. No caso de serviços, por exemplo, o PIB do setor se manteve estável entre outubro e novembro – o pior resultado desde abril de 2022 (-0,6%). Ao mesmo tempo, investimentos na economia dão sinais negativos, no indicador. Em novembro, a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) caiu 1,2% em novembro ante outubro. E, pelo lado da demanda, o Consumo das Famílias caiu 2,3% em novembro ante outubro, pior taxa desde março de 2021 (-4,5%).
Assim, para Considera, o desempenho sinaliza que o PIB do último trimestre do ano passado deve crescer pouco, com taxa entre 0,1% e 0,2%, e que o crescimento econômico deve arrefecer em 2023.
Um dos fatores que explica o atual cenário é a queda no rendimento médio dos trabalhadores e o impacto da inflação no consumo das famílias. Isso acaba derrubando demanda interna, e ajudando a puxar para baixo o PIB, notou ele. “As pessoas estão empregadas com salários menores que os anteriores. Isso faz com que rendimento médio caia e isso, junto com a inflação, derruba o das famílias, que é uma grande contribuição para o PIB brasileiro”, explica. Considera citou quedas consecutivas no consumo de bens duráveis, e de semiduráveis, após melhora com arrefecimento de período mais agudo da pandemia e retorno ao trabalho presencial. O consumo de bens não duráveis, por outro lado, continua crescendo. “As pessoas estão recebendo o Auxílio Brasil [programa de transferência de renda do governo e que voltará se chamar Bolsa Família] e podendo comprar alimentos”, diz Considera.
Para melhorar a performance do PIB, o especialista deu algumas sugestões. Pelo lado da demanda, ele sugere aumento de salário-mínimo, medida que pode contribuir para incrementar o poder de compra das famílias. A valorização do mínimo, que está em R$ 1.302 desde 1º de janeiro, foi uma promessa de campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e está em discussão pela equipe econômica.
Outra medida que poderia ser tomada pelo governo, no entendimento do economista, é prover ambiente adequado para que o FBCF cresça mais, dentro do PIB. O economista da FGV enfatiza que o Estado precisa dar segurança jurídica aos investidores, sobretudo após os ataques extremistas de 8 de janeiro no Distrito Federal. “O episódio dá muita insegurança aos investidores. Tem que prender e punir essas pessoas que estão indo contra as regras do Estado Democrático de Direito”, afirma.
Fonte: Valor Econômico
