Por Chris Flood — Financial Times
18/01/2023 05h01 Atualizado há 5 horas
Wall Street perdeu popularidade entre os gestores de fundos mundiais, que cortaram as alocações para o mercado de ações dos Estados Unidos para o nível mais baixo dos últimos 17 anos, e têm preferido buscar oportunidades na Europa e em ações de mercados emergentes.
A pesquisa mundial de gestores de fundos do Bank of America mostrou que 39% dos responsáveis pela alocação de ativos detinham uma posição “underweight” (abaixo da média do mercado) em ações dos EUA em janeiro, em comparação com 12% em dezembro, no colapso mais abrupto do sentimento em um único mês na história dessa pesquisa, que começou em 1985 e é acompanhada com atenção.
A perspectiva sombria para as ações dos EUA sublinha uma mudança significativa nos mercados mundiais. As ações de Wall Street estiveram em voga durante o mercado com tendência de alta da época da pandemia, que teve como estopim os estímulos maciços distribuídos pelo Federal Reserve (Fed) e pelo governo dos EUA para combater a crise da covid-19.
Gigantes do setor de tecnologia, como Apple, Microsoft e a Alphabet, proprietária do Google, assim como a fabricante de carros elétricos Tesla e a fabricante de chips Nvidia, registraram enormes ganhos a partir das baixas do mercado de 2020. A recuperação de Wall Street se reverteu drasticamente no ano passado, e o índice geral S&P 500 caiu quase um quinto quando o Fed começou a reduzir as medidas que tinham levantado os mercados.
Hoje, mais da metade dos 253 gestores de fundos entrevistados, que supervisionam ativos combinados de US$ 710 bilhões, disseram esperar que o S&P 500 seja negociado abaixo do nível de 4 mil pontos no fim do ano, enquanto 37% previram que o principal índice de referência do mercado dos EUA fecharia 2023 acima dessa marca.
Michael Wilson, estrategista de ações do Morgan Stanley, que publicou vários alertas sobre as perspectivas para as ações dos EUA, disse que “é provável” que os ganhos empresariais e as margens de lucro “decepcionem de forma significativa, haja ou não uma recessão econômica”. “O principal culpado é o ambiente inflacionário elevado e volátil, que provavelmente causará muitos estragos na lucratividade.”
Para Jamie Fahy, estrategista global do Citi, o mercado de ações dos EUA “sofrerá” se o setor de tecnologia começar a ter mais rebaixamentos nos lucros.
As previsões feitas em dezembro pelos principais bancos de investimento para o S&P 500 em 2023 variaram entre uma alta a 4.500 pontos, estimada pelo Deutsche Bank, e uma baixa a 3.400 pontos, projetada pelo BNP Paribas. O S&P 500 subiu cerca de 4% no ano, mas ficou atrás do Stoxx 600 da Europa, com ganho de 8,5% em dólares americanos, e do índice de mercados emergentes do MSCI, que registra alta em torno de 7,8% na mesma base.
A maioria dos investidores acredita que a inflação mundial já passou do seu pico, o que também leva a uma ligeira moderação nos temores a respeito de uma recessão, de acordo com a pesquisa do Bank of America.
Um número menor de gestores ouvidos pela pesquisa do Bank of America tem a expectativa de que o banco central dos EUA precise elevar a taxa de juro de referência a 5,25% ou mais neste ano. A proporção dos entrevistados que esperam que as taxas americanas atinjam essa marca caiu de 44% em dezembro para 20% neste mês. Hoje a maioria dos gestores de fundos mundiais considera que o cenário mais provável é de um pico de 5% para a principal taxa básica de juro dos EUA, com relação à faixa atual, de 4,25% a 4,50%.
“Pela primeira vez desde março de 2020, grandes investidores consideram que a política monetária está muito apertada. Eles estão dizendo aos bancos centrais que o ciclo de aperto monetário funcionou bem demais e agora é hora de parar [de elevar as taxas de juro]”, disse Michael Hartnett, estrategista-chefe de investimentos da pesquisa global do Bank of America.
A movimentação dos gestores de fundos mundiais para longe dos Estados Unidos é acompanhado por um deslocamento para a Europa e os mercados emergentes.
Pouco mais de um quarto dos gestores de fundos mundiais têm hoje uma posição “overweight” (acima da média) nos mercados emergentes. Esses grandes investidores institucionais também mudaram sua alocação de recursos para as ações europeias, de uma situação de 10% “underweight” em dezembro para uma de 4% “overweight” em janeiro. Investidores são descritos como em situação “overweight” quando alocam para uma região uma parcela maior do que seu peso em um índice de referência que pode ser usado para avaliar o desempenho de um gestor de fundos.
Fonte: Valor Econômico
