Por Stella Yifan Xie — Dow Jones Newswires, de Hong Kong
19/04/2023 05h06 Atualizado há 4 horas
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Durante anos, os economistas alertaram que a economia da China sofria de um desequilíbrio que tornava seu crescimento acelerado insustentável. O país também dependia demais dos investimentos e não tinha gastos de consumo.
Mas a China divulgou ontem números que mostraram que os gastos com consumo lideraram a recuperação econômica no primeiro trimestre deste ano, após o fim da política de covid-zero. A grande dúvida é se isso vai durar.
Dados oficiais apontaram ontem o Produto Interno Bruto (PIB) chinês cresceu 4,5% ao ano no primeiro trimestre, a maior taxa desde o primeiro trimestre de 2022.
A força da recuperação econômica da China no primeiro trimestre sem as restrições sanitárias da covid-19, jogou um raio de esperança para uma economia mundial que enfrenta uma série de obstáculos que incluem a inflação elevada, juros mais altos e impacto da instabilidade no setor financeiro.
O que mais impressionou muitos economistas nos números do PIB foi a fonte do crescimento chinês: conduzido em grande parte pelas vendas no varejo, que aumentaram mais de 10% em março em comparação com igual mês de 2022. Trata-se da maior alta em quase dois anos e ajudou a compensar uma desaceleração maior que a esperada no setor imobiliário, na infraestrutura e outros investimentos do setor privado.
Março foi o primeiro mês em dois anos em que o aumento anual das vendas no varejo superou o da produção industrial e os investimentos em ativos fixos, segundo a provedora de dados Wind.
“Os indicadores de consumo continuam à frente dos segmentos da indústria”, disse Louise Loo, economista da Oxford Economics, após o anúncio dos números, prevendo mais força dos consumidores chineses nos próximos meses.
Só em março a receita dos restaurantes aumentou 26% ao ano, segundo os dados oficiais de ontem, um sinal de que os consumidores ansiavam por uma vida pós-covid e gastar mais livremente.
Ao mesmo tempo, houve um abrandamento na atividade de investimento a que Pequim havia há muito se acostumado para proteger a economia em períodos de recessões. O crescimento dos investimentos em renda fixa teve uma desaceleração inesperada em março, enquanto o aumento dos investimentos em infraestrutura caiu um pouco para 8,8% em relação aos primeiros dois meses do ano.
Mais preocupante é o fato de os investimentos no setor imobiliário, que foram o motor do crescimento chinês na última década, ainda não terem se estabilizado. Esses investimentos caíram 5,8% no primeiro trimestre em comparação a igual período de 2022.
A grande questão agora é se esse salto nos gastos com consumo é apenas um voo de galinha – no que economistas chamam de “gastos de vingança” -, ou se prenuncia uma mudança da dinâmica da economia, com os consumidores tendo um papel maior na condução do crescimento em geral.
Tommy Wu, economista sênior do Commerzbank, disse ontem que se a confiança continuar aumentando, a recuperação do consumo poderá durar algum tempo, dado a limitada inflação ao consumidor neste ano até agora – apenas 0,7% em março.
Após a divulgação do PIB, o UBS e o Citigroup elevaram suas previsões de crescimento para a China neste ano para 5,7% e 6,1%, respectivamente, bem acima da meta oficial de crescimento de cerca de 5%.
Porém, alguns economistas continuam cautelosos, apontando que a recuperação como um todo ainda é incipiente, com vários obstáculos. O inesperado crescimento das exportações em março poderá ser só pontual se o impulso das encomendas atrasadas diminuir, conforme esperado, e o risco de recessão continuar pairando sobre as economias ocidentais.
A tensão no mercado de trabalho, com a taxa de desemprego entre os jovens aumentando para 19,6% em março, também poderá abalar a confiança do consumidor nos próximos meses.
Além disso, o problemático setor imobiliário chinês continua sendo um peso ao crescimento. Os dados de ontem mostraram que o início de novas construções por incorporadoras imobiliárias caiu 19,2% ao ano em março, acelerando uma queda de 9,4% registrada nos primeiros dois meses do ano.
A confiança entre os empreendedores privados também continua fraca, atingida nos últimos anos por mudanças das regras relacionadas à covid-19 e o ambiente de negócios como um todo.
Os investimentos das empresas privadas cresceram 0,6% ao ano no primeiro trimestre, ficando atrás da expansão de 10% dos investimentos das estatais, segundo números divulgados ontem.
“O golpe na confiança do setor privado é mais profundo e mais amplo do que esperávamos anteriormente”, diz Tianlei Huang, um pesquisador do Peterson Institute for International Economics.
Fonte: Valor Econômico
