Por Larissa Garcia e Alex Ribeiro — De Brasília e São Paulo
22/06/2022 05h03 Atualizado há 5 horas
Em sua justificativa para a sinalização da extensão do ciclo de alta de juros, o Banco Central afirmou que, durante as discussões sobre os próximos passos da política monetária, entendeu que apenas manter a Selic em patamar elevado por mais tempo não seria suficiente para levar a inflação e as expectativas do mercado à meta no próximo ano. Isso é o que mostra a ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), publicada ontem. Segundo o documento, foram consideradas as hipóteses de indicar para o encontro de agosto a manutenção de juros altos por mais tempo ou de elevar a taxa Selic a um patamar mais alto ao fim do ciclo de aperto monetário.
“Dada a persistência dos choques recentes, o comitê avaliou que somente a perspectiva de manutenção da taxa básica de juros por um período suficientemente longo não asseguraria, neste momento, a convergência da inflação para o redor da meta no horizonte relevante”, disse o documento. “O comitê optou então por sinalizar um novo ajuste de igual ou menor magnitude.”
Na última quarta-feira, o Copom elevou a taxa Selic em 0,5 ponto percentual, para 13,25% ao ano, e sinalizou novo ajuste de igual ou menor magnitude para a reunião de agosto. A estratégia foi considerada a mais adequada para garantir a convergência da inflação ao longo do chamado horizonte relevante – período para o qual o BC entende que a política monetária tem efeito -, assim como a ancoragem das expectativas de prazos mais longos.
Atualmente o Copom mira integralmente a meta de inflação de 2023. Em estudos feitos pelo BC, a política monetária age com defasagem de 18 a 24 meses – então, na próxima reunião, 2024 entra no horizonte da autoridade, ainda em menor grau.
O colegiado afirmou também que a decisão de elevar os juros em 0,5 ponto reflete “o aperto monetário já empreendido”, reiterando que parte dos efeitos da alta de juros ainda não foi sentido. Para o comitê, o impacto deve ser mais forte a partir do segundo semestre deste ano.
Ainda assim, o colegiado concluiu que a dose de juros implícita no tamanho do ciclo de alta e o prolongamento do aperto monetário previstos pelo mercado em seu cenário de referência seriam insuficientes para cumprir a meta de inflação no horizonte relevante de política monetária.
“O Comitê avalia, com base nas projeções utilizadas e seu balanço de riscos, que a estratégia requerida para trazer a inflação projetada em 4,0% para o redor da meta no horizonte relevante conjuga, de um lado, taxa de juros terminal acima da utilizada no cenário de referência e, de outro, manutenção da taxa de juros em território significativamente contracionista por um período mais prolongado que o utilizado no cenário de referência”, disse a ata.
Dessa forma, afirma o documento, “a estratégia de convergência para o redor da meta exige uma taxa de juros mais contracionista do que o utilizado no cenário de referência por todo o horizonte relevante”. O Copom ressaltou no texto que ocorreu deterioração tanto na dinâmica inflacionária de curto prazo quanto em suas projeções mais longas, “ainda que o cenário esteja cercado de incerteza e volatilidade acima do usual”. “O ciclo de aperto monetário corrente foi bastante intenso e tempestivo e, devido às defasagens de política monetária, ainda não se observa grande parte do efeito contracionista esperado bem como seu impacto sobre a inflação corrente”, destacou a ata.
O BC reiterou que a inflação ao consumidor segue elevada, com alta disseminada e mais persistente que o antecipado. O Copom notou ainda que ocorreu deterioração tanto na dinâmica inflacionária de curto prazo quanto em suas projeções mais longas, “ainda que o cenário esteja cercado de incerteza e volatilidade acima do usual”.
O colegiado reforçou também que a incerteza sobre o futuro do arcabouço fiscal do país e políticas que sustentem a demanda agregada podem trazer risco de alta para o cenário inflacionário e repetiu a avaliação publicada no comunicado de “as medidas tributárias em tramitação reduzem sensivelmente a inflação no ano corrente, embora elevem, em menor magnitude, a inflação no horizonte relevante de política monetária”.
Sobre atividade econômica, o Copom disse que os dados recentes, que levaram a uma revisão positiva para o crescimento em 2022, ainda refletem majoritariamente o processo de normalização da economia após a pandemia de covid-19. Essa dinâmica se dá, segundo o BC, pelo maior consumo de serviços, pela utilização do excesso de poupança e pelo estímulo fiscal transitório efetuado no primeiro semestre do ano.
“O Comitê avalia que a atividade deve desacelerar nos próximos trimestres, quando os impactos defasados da política monetária se fizerem mais presentes”, reiterou.
Fonte: Valor Econômico