Por Manoel Ventura, Fernanda Trisotto e Estevão Taiar — De Brasília
15/03/2023 05h01 Atualizado há 6 horas
Num momento de juros altos em todo o mundo na tentativa de frear a inflação, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, usou o exemplo da quebra do americano Silicon Valley Bank (SVB), que abalou os mercados financeiros nesta semana, para chamar a atenção para o que considera um limite prudencial para a política monetária contracionista.
A crise bancária nos Estados Unidos levou analistas a prever o início de uma redução das taxas de juros na maior economia do mundo e também no Brasil. Para Haddad, o risco de não se seguir esse limite é desorganizar a economia. “Qual o limite prudencial para aumentar juros sem desorganizar a economia como um todo? A quebradeira que pode advir de um descasamento das carteiras e tudo mais. E aí tem setores dizendo que vai chegar uma hora que vai esbarrar nesse limite”, afirmou.
Temos um sistema bancário muito robusto do ponto de vista de governança da sua regulação interna. A gente cumpre os acordos internacionais com folga”
O governo Lula tem sido um crítico da atual política de juros do Banco Central (BC), que mantém a taxa básica (Selic) em 13,75% ao ano desde o ano passado. O presidente do BC, Roberto Campos Neto, foi indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e fica no cargo até 2024, por força da autonomia da instituição aprovada pelo Congresso em 2021.
Em sua participação no “E agora, Brasil?”, Haddad apontou o colapso do SVB nos EUA como um exemplo dos problemas causados pelo descasamento da carteira de crédito de instituições financeiras em meio a altas acentuadas de juros. Ou seja, uma diferença entre a remuneração dos títulos que o banco tinha e a taxa de juros vigente. No entanto, o ministro avaliou que não há sinais de crise sistêmica, ainda que considere o caso “grave”. Ele também reforçou que o sistema bancário brasileiro não está vulnerável e enalteceu a governança e regulação interna do setor financeiro no Brasil.
“Nós temos um sistema bancário que é muito robusto do ponto de vista de governança da sua regulação interna. A gente cumpre os acordos (de limites prudenciais) internacionais com folga. E eu penso que isso nos dá uma robustez muito grande”, afirmou
O chefe da equipe econômica também disse que há pouco espaço para aumento da taxa de juros no mundo, mas que o Brasil está na contramão.
“Há pouco espaço para aumento da taxa de juros no mundo. E há uma gordura no Brasil, que permite a nós, tomando as providências que estão sendo tomadas [pela equipe econômica] e reconhecidas pelo Banco Central em atas… Penso que temos um espaço [para baixar juro]) que o mundo não tem.”
Haddad também defendeu a necessidade de compatibilizar as políticas monetária, ou seja, a de juros do BC, com a fiscal, que envolve as contas do governo. “Se nós harmonizarmos as políticas fiscal e monetária, nós podemos ancorar e navegar em mares internacionais revoltos. Eu penso que nós estamos preparados para qualquer cenário”, disse.
Fonte: Valor Econômico


