Enquanto o Vale do Silício e a China disputam a corrida bilionária pelos modelos de inteligência artificial, investidores que apostam em startups brasileiras acreditam que o maior prêmio para o país está em outra parte da cadeia: infraestrutura e aplicações.
A região concentra cerca de um quarto das reservas globais de energia e possui parte relevante dos minerais usados em baterias, como lítio e cobre, o que tem levado firmas como a Kaszek a olharem negócios relacionados a data centers, por exemplo. “Também estamos vendo uma nova geração de empresas de IA, principalmente B2B, que não vendem apenas software, mas serviços completos”, disse Santiago Fossatti, sócio da Kaszek, em participação no Web Summit Rio.
Para os investidores de estágio inicial, a principal vantagem competitiva não está na tecnologia em si, mas nas pessoas capazes de acompanhar a velocidade das mudanças. “Hoje, quando analisamos uma startup de IA, o mais importante é a qualidade do time técnico”, afirmou Gustavo Ahrends, sócio da Norte Ventures “A tecnologia evoluiu tanto nos últimos dois anos que precisamos garantir equipes que consigam acompanhar esse ritmo para não ficar para trás.”
Ahrends também observa uma mudança relevante no perfil dos empreendedores brasileiros. Se antes as startups nasciam com ambições regionais, mirando primeiro México ou América Latina, agora é cada vez mais comum encontrar fundadores construindo negócios globais desde o primeiro dia. “A IA tornou o mundo menor”, disse. “Os melhores talentos brasileiros estão trabalhando nas grandes empresas de IA nos Estados Unidos e muitos deles estão voltando para empreender.”
A discussão também passou pelo impacto da tecnologia no mercado de trabalho. Embora o temor de substituição em massa de profissionais seja frequente nos Estados Unidos, os investidores enxergam uma dinâmica diferente no Brasil. “Aqui a IA deve primeiro preencher vazios de produtividade antes de eliminar empregos”, afirmou Gabriel Farme, sócio da Graphene Ventures. “Temos muitas ineficiências que podem ser resolvidas com automação.”
Mesmo assim, os sinais de transformação já aparecem em áreas como atendimento ao cliente, vendas e backoffice. Segundo Ahrends, soluções capazes de automatizar integralmente operações de call center e funções repetitivas já apresentam resultados concretos dentro de grandes empresas “Estamos vendo casos em que departamentos conseguem reduzir entre 50% e 80% da força de trabalho necessária para executar determinadas funções”, afirmou.
Para Fossatti, o potencial de impacto ainda está longe de ser plenamente explorado. “Mesmo que o desenvolvimento da IA parasse hoje, ainda vimos apenas uma fração mínima do que a tecnologia atual é capaz de gerar de valor.”
Apesar do debate crescente sobre regulação, os investidores avaliam que o tema ainda está distante da realidade da maior parte das startups brasileiras. “A preocupação com segurança dos modelos está muito mais concentrada nos Estados Unidos”, disse Ahrends. “No Brasil, a discussão regulatória deve surgir principalmente dentro de setores específicos, como saúde e serviços financeiros.”
Se existe um consenso entre os investidores, é que a inteligência artificial não representa apenas uma nova tecnologia, mas uma mudança estrutural na forma como empresas serão construídas. “Os grandes vencedores da próxima geração estão sendo criados agora”, afirmou Fossatti.
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Fonte: Valor Econômico