03/07/2022 – Jornalista: Douglas Gavras
Vendedor de acessórios para celular e óculos no centro do Recife, Cristiano Silva, 36, só queria planejar os próximos anos ?mas, ao ver sua renda despencar com a pandemia e precisando voltar à informalidade, ele já não consegue se programar nem para as contas do mês.
?Nunca mais houve uma volta à normalidade. Antes, já havia uma queda nas vendas. Assim que voltamos, o movimento foi bom por algumas semanas, acho que era demanda reprimida, mas durou pouco?, conta.
A falta de direitos trabalhistas e de perspectivas de se aposentar ou ter um auxílio, em caso de acidentes, é a principal preocupação do pernambucano. ?Tinha inscrição como MEI [Microempreendedor Individual], mas a queda nas vendas fez com que a taxa ficasse pesada no orçamento. Tenho medo de que algo aconteça comigo e minha família fique desprotegida.?
O Brasil ganhou 1,42 milhão de informais entre o começo da pandemia, no primeiro trimestre de 2020, e os três primeiros meses de 2022.
De janeiro a março, o total de informais foi de 38,203 milhões ?maior número de pessoas nessa situação em um primeiro trimestre desde o início da série histórica, em 2015.
Os cálculos foram feitos a partir dos dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua, pelos pesquisadores do IBREFGV (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas) Janaína Feijó e Paulo Peruchetti.
O mercado de trabalho até conseguiu voltar ao nível prépandemia antes do que se esperava, mas a qualidade dos postos preocupa especialistas.
?Muitos desses novos postos foram gerados por meio do trabalhado informal, é uma recuperação impulsionada por funções que exigem menor escolaridade e geram rendimentos menores. Estamos vendo uma recomposição do mercado de trabalho que é preocupante?, diz Feijó.
Nessa conta, entram trabalhadores do setor privado sem carteira assinada, empregadores sem CNPJ e quem trabalha por conta própria e não tem registro de pessoa jurídica.
Os últimos dois anos também marcaram as diferenças regionais. Houve aumento de 527,1 mil trabalhadores na informalidade nos estados do Sudeste, e no Nordeste foi de 370,7 mil pessoas. As regiões têm o maior número de trabalhadores ocupados do país.
Os dados são mais preocupantes no Nordeste ?a taxa de informalidade aumentou 1,2 ponto percentual e chegou a 53,62% no primeiro trimestre? e no Norte (+0,13 p.p.), com 56,61%. Nessas regiões, mais da metade dos trabalhadores está na informalidade.
?A recuperação do mercado de trabalho pode estar atrelada a uma recuperação sazonal que a Pnad registrou, mas a tendência para o ano não é boa. A economia está estagnada, e a perspectiva para o segundo semestre é a pior possível?, diz Gustavo Casseb Pessoti, presidente do Conselho Regional de Economia da Bahia.
Ele diz que, nos momentos em que a economia brasileira estimulava políticas de crédito e aumento real do salário mínimo, as regiões Norte e Nordeste apresentaram taxas de crescimento acima da média do país. ?A piora nesse ambiente levou o Norte e o Nordeste para o fundo do poço, já que a maior parte dos municípios tem forte dependência do setor público.?
A partir de 2019, a informalidade cresceu muito no país, justamente por essa dificuldade de gerar empregos de qualidade, diz Feijó. ?Passado o que a gente espera ser o pior momento da pandemia, o Brasil ainda precisa encarar as dificuldades de crescimento e de fraqueza do mercado de trabalho.? No período, a taxa de informalidade só teve queda nos estados do Centro-oeste, de 0,6 p.p., chegando a 36,9%.
?Só que o Centro-oeste apenas voltou para o nível em que estava em meados de 2020. É um pouco melhor do que no resto do país, mas ainda é um patamar alto para a região?, diz Peruchetti.
Ele lembra que os informais foram os mais afetados no pico da pandemia, com as medidas consideradas necessárias de distanciamento e restrição de circulação de pessoas.
?Com o início da recuperação, o desemprego foi voltando ao patamar anterior à crise sanitária, mas pelo fato de os informais estarem retornando às suas atividades.?
Fantasma entre os que tentam voltar ao mercado de trabalho, sobretudo desde a crise de 2015 e 2016, o desemprego de longo prazo também tem sotaques regionais.
Entre 2020 e 2022, a desocupação de longa duração (a partir de dois anos) cresceu 23,1% no Nordeste e 12,8% no Norte, caindo, novamente, só no Centro-oeste (-14,8%). No Brasil, o aumento foi de 11,3%.
Parte da alta da informalidade também se explica pelo aumento da chamada taxa de participação na força de trabalho. Esse indicador aponta a porcentagem de pessoas em idade de trabalhar (14 anos ou mais) que estão empregadas ou em busca de trabalho.
A taxa teve queda brusca durante a pandemia e foi se recuperando com a reabertura e o avanço da vacinação. Ela era de 62,1% no primeiro trimestre deste ano ?só que ainda abaixo do primeiro trimestre de 2019 (63,4%) e do mesmo período de 2020 (62,7%).
Fonte: Folha de S.Paulo

