Laboratório dinamarquês Novo Nordisk quer mais tempo para vender no Brasil o medicamento usado para diabetes tipo 2 com patente
Por Mônica Scaramuzzo — De São Paulo
14/09/2023 05h00 Atualizado há 2 horas
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Na Faria Lima, o Ozempic (medicamento injetável para combater diabete tipo 2) tornou-se um dos principais assuntos de executivos, sobretudo após o momento mais crítico da pandemia, quando as pessoas tiveram de voltar aos escritórios. Uma das principais marcas globais da dinamarquesa Novo Nordisk, o remédio, conhecido como canetinha azul, é consumido também por pessoas que querem emagrecer, embora a prescrição médica não seja essa.
O uso “off-label” (fora da recomendação da bula) deste tipo de medicamento tem sido indicado pela classe médica em todo mundo porque um efeitos colaterais da semaglutida (ingrediente do Ozempic) é a perda de apetite.
“Para falar de diabetes, temos de falar também de obesidade numa discussão maior. Cerca de 80% das pessoas com diabetes 2 têm problema de obesidade. O tema tem de ser tratado como doença crônica grave, não apenas como sobrepeso. É uma questão de saúde”, afirma Lars Jørgensen, presidente global da farmacêutica, em entrevista exclusiva ao Valor.
A empresa lançou este ano o Wegovy (de uso subcutâneo), que é um medicamento voltado especificamente para emagrecer, a partir de uma nova composição da semaglutida (composição 2,4 mg), que já é vendido na Alemanha, Dinamarca, Estados Unidos, Noruega e Reino Unido. “A demanda tem sido muito grande. Estamos vendendo tudo o que temos produzido”, disse.
A Novo Nordisk vem registrando números históricos. No início do mês, a empresa se tornou a mais valiosa da Europa ao ultrapassar o conglomerado de luxo LVMH (dona da Louis Vuitton). Ontem, a farmacêutica fechou avaliada em US$ 431 bilhões, enquanto a gigante do luxo encerrou a US$ 408,9 bilhões. O PIB da Dinamarca, sede da companhia, é estimado em US$ 395 bilhões.
Temos de discutir a obesidade como uma doença crônica grave”
— Lars Jørgensen
“A nossa categoria de produtos ajuda a reduzir a glicose de um jeito responsável. E é muito interessante descobrir que seus efeitos colaterais colaboram para a perda de peso e também podem reduzir os riscos de doenças cardiovasculares, que são muito letais. Portanto, é uma categoria muito atraente para se estar [em atuação no mercado farmacêutico]”, comenta o executivo global da companhia farmacêutica.
O Wegovy é o “blockbuster” da Novo Nordisk e os concorrentes, como Eli Lilly, tem corrido para não ficar atrás. A empresa divulgou, no fim do mês passado, estudos afirmando que essa versão do medicamento também reduz os riscos de doenças cardiovasculares. Desde então, as ações da empresa não param de subir.
Aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em janeiro deste ano, a expectativa é de que o produto seja comercializado no país nos próximos meses. A empresa não comenta sobre o prazo.
No Brasil, a Novo Nordisk tem em Montes Claros (Minas Gerais) uma das maiores fábricas de insulina (que combate a diabete tipo 1) do grupo – a unidade só está atrás da China em capacidade de produção. Boa parte da produção de insulina da companhia é negociada com o governo (União, Estados e prefeituras).
A principal receita da companhia no país não vem da insulina, mas sim do Ozempic, que nem é produzido no país. A receita da empresa para o mercado privado fechou em R$ 3,7 bilhões, com o Ozempic e outros medicamentos à base de semaglutida da farmacêutica, como principais representantes, um crescimento de 52% sobre o ano anterior. A companhia não abre os dados de venda para o governo, que incluem a insulina e um recombinante para hemofilia.
A patente do semaglutida no Brasil expira em 2026 – a empresa pede na Justiça a restituição do tempo entre o prazo que o produto foi registrado no Brasil e concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi), uma diferença de cerca de sete anos para o Ozempic, por exemplo. Em abril deste ano, a Justiça não acatou o pedido da empresa, que está recorrendo.
“No momento, existem algumas discussões no Brasil em termos de proteção de patentes para a semaglutida. O tempo de comercialização foi encurtado depois que lançamos o produto”, diz o executivo sobre esse assunto. A discussão sobre a validade da patente, segundo Jørgensen, impacta, no fim das contas, o quanto uma empresa farmacêutica poderá investir no desenvolvimento de novos medicamentos e expansão de seus negócios.
“Para a indústria farmacêutica, as patentes são de fundamental importância porque assumimos riscos significativos no desenvolvimento de novos medicamentos. E quando iniciamos um novo projeto de pesquisa, talvez ele tenha apenas 5% de probabilidade de acabar em um produto chegando ao mercado. Portanto, temos muitos fracassos no caminho”, afirma o executivo.
Para a indústria de genéricos, a queda da patente da semaglutida, contudo. se traduzirá em mais receitas e já há uma disputa entre os maiores fabricantes nacionais sobre quem deve liderar a produção da cópia do medicamento. No Brasil, uma caixa de Ozempic custa em torno de R$ 1.000 nas principais redes de varejo. O Wegovy custa em torno de US$ 1.300 (R$ 6.300) nos Estados Unidos.
Jørgensen afirma que o Brasil está no radar de investimento da companhia, mas não há nada fechado sobre tema na matriz. “O Brasil é um dos cinco países onde temos uma unidade de produção estratégica. A unidade de Montes Claros é uma das maiores fábricas nossas de produção de insulina”, diz o executivo.
Fontes do setor, contudo, não acreditam que o Brasil possa receber grandes volumes de investimentos, uma vez que o país não é base de produtos inovadores.
Nos holofotes, a Novo Nordisk tem muitos competidores globais tentando abocanhar um quinhão maior das vendas de medicamentos para diabetes e também para emagrecimento.
Jørgensen sabe que os produtos que a companhia fabrica e vende não são baratos. Neste momento, para a companhia, a oferta é menor que a demanda, o que o deixa os pacientes com menor margem de negociação.
O presidente da empresa entende que as discussões de acesso a esses medicamentos têm de ser feitas com cada mercado onde a companhia atua e que será preciso chegar a um acordo econômico. “Há muitos países com jovens obesos. É uma questão de saúde. Se [os medicamentos] fossem incluídos no sistema de saúde, poderíamos prevenir uma série de doenças”, afirma o executivo.
Fonte: Valor Econômico