Em Wall Street, o otimismo com o ouro está praticamente intacto. Apesar de tudo, analistas dos grandes bancos mantêm previsões entre US$ 5.400 e US$ 6.000 para as barras do metal até o fim de 2026. Mesmo enquanto os preços derretem e chegam perto de zerar os ganhos acumulados na forte alta do início do ano, de volta aos US$ 4.500. O recuo não foi o suficiente para mudanças significativas nas projeções, mas já há quem reconheça que, se a inflação persistir e os juros nos Estados Unidos subirem, o metal sofrerá um revés.
A demanda perene dos bancos centrais é o principal argumento a favor da alta, como escreveram em relatório Lina Thomas e Daan Struyven, do Goldman Sachs, na última sexta (15). Eles estimam uma média de 60 toneladas mensais em compras do metal e preveem que o preço chegue a US$ 5.400.
Os fatores críticos, na visão dos analistas do JPMorgan, serão a situação do Estreito de Ormuz e a política fiscal do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos). Se o estreito for reaberto em breve, o dólar e as taxas do Tesouro americano cairiam e o metal voltaria à trajetória ascendente. Mas, caso a inflação nos Estados Unidos continue elevada em paralelo a uma taxa de emprego alta, o Fed teria de aumentar os juros, e o cenário seria persistentemente negativo para o ouro.
Como o metal não paga juros, um cenário de taxas mais altas nos EUA torna os títulos do Tesouro americano (as “Treasuries”) mais atrativos do que carregar o metal. Foi essa balança que pesou a favor do ouro nos últimos meses, conforme a guerra freou o ciclo de cortes de juros na economia americana e aumentou a procura pelo dólar.
“Historicamente, o ouro e os juros reais americanos possuem uma correlação inversa”, afirma Nickolas Lobo, especialista em investimentos da Nomad. No entanto, ele ressalta que existem cenários alternativos onde os juros americanos seguem altos e o ouro mantém sua dinâmica de alta. “Isso vai depender do apetite dos bancos centrais em manter ou reduzir sua exposição ao dólar.”
Os fundos indexados (ETF, na sigla em inglês) se tornaram os principais veículos de acesso do investidor de varejo aos investimentos em ouro. Eles são negociados em bolsa, assim como as ações, e replicam algum índice, como o LBMA Gold Price (que é o contrato de ouro no mercado de balcão de Londres). Abril registrou uma retomada do fluxo comprador de ouro por esses fundos, depois de resgates líquidos equivalentes a 84,3 toneladas apenas em março. Foram 45 toneladas em aplicações líquidas em abril, de acordo com dados do Gold World Council.
Se os otimistas estiverem certos, há uma oportunidade e tanto para investidores colocarem um pouco do metal na carteira. E, mesmo se não estiverem, analistas vêem bons motivos para ter alguma parcela dos investimento na mais antiga reserva de valor do mercado.
Lobo, da Nomad, afirma que, embora seja um ativo de proteção, a volatilidade do ouro é muito próxima à da bolsa americana (medida por um de seus principais índices, o S&P 500). “Olhando para a correlação histórica, o metal segue desempenhando um papel eficiente de proteção em relação a bolsa, diferentemente dos títulos do Tesouro americano, que no atual ciclo de mercado têm apresentado correlação positiva com as ações”, diz.
Para o analista, o ouro atua como um suavizador contra quedas acentuadas, protegendo o patrimônio durante choques “de cauda”, que são eventos imprevisíveis e extremos. Mas, até por isso, deve representar uma parte pequena dos investimentos totais. “Exagerar na alocação em ouro pode comprometer o retorno real do portfólio no longo prazo, principalmente por conta da ausência de geração de caixa.”
Como reserva de valor, o desempenho de longo prazo do ouro é superior à do dólar, afirma Juarez Filho, presidente da Ourominas. “Em 1924, com US$ 60 era possível comprar 100 gramas de ouro, enquanto hoje esse mesmo valor não compra sequer uma grama”, diz. “Ninguém nunca levou prejuízo com o ouro no longo prazo”.
Fonte: Valor Investe