Por Fernanda Guimarães — De São Paulo
26/04/2024 05h02 Atualizado há 6 horas
Contrariando um otimismo observado no final do ano passado, 2024 começou fraco para as ofertas de ações na bolsa brasileira, algo que não se via há pelo menos oito anos em termos de volume financeiro. No ano, até aqui, foram seis ofertas de ações de empresas já listadas (“follow-ons”), que somaram R$ 4,9 bilhões, com um impulso da transação da Energisa, de R$ 2,5 bilhões. Entre as apostas, começa a crescer a de que o mercado brasileiro poderá enfrentar o terceiro ano consecutivo de entressafra de ofertas iniciais de ações (IPOs, na sigla em inglês).
O cálculo do volume financeiro das ofertas, feito pelo Valor a partir de dados da B3, considera apenas as transações locais, ou seja, exclui a do banco Inter, realizada nos Estados Unidos e com o objetivo de ganhar liquidez na bolsa americana. No mesmo intervalo do ano passado, no qual o mercado sofreu uma paralisia após se tornar pública uma das maiores fraudes corporativas do Brasil, a da varejista Americanas, que travou o ambiente de negócios no primeiro trimestre, o volume foi de R$ 7,1 bilhões, mas com quatro operações. Uma delas foi a do Assaí, com o Casino vendendo R$ 4 bilhões de ações para arcar com compromissos com credores. A partir de maio, contudo, o mercado se mostrou mais forte, com operações especialmente de empresas endividadas.
Para este ano, a oferta que deverá tirar a curva do lugar é a da Sabesp, que vem sendo formatada pelo governo de São Paulo, num processo de privatização que deve girar cerca de R$ 20 bilhões. O desenho busca atrair um investidor de referência para ficar com 15% da companhia, e ainda estão em análise formas de driblar a alta volatilidade do mercado. Outra operação de peso é a venda das ações da Isa Cteep pela Eletrobras, que pode movimentar algo em torno de R$ 4 bilhões, mas que ainda depende de melhores condições do mercado, que segue volátil.
Com a atual fotografia, o valor total no acumulado do ano até aqui só perde para 2016, quando o volume de ofertas ficou limitado a R$ 3,49 bilhões, com um total de quatro operações realizadas entre janeiro e abril daquele ano, período fortemente marcado por alta volatilidade dos mercados e pelo impeachment de Dilma Rousseff.
Na contramão, o melhor ano em volumes financeiros foi 2021, quando a bolsa brasileira foi palco de 33 ofertas apenas no primeiro quadrimestre daquele ano: somaram o recorde de R$ 54,9 bilhões, na esteira de ampla liquidez global. De janeiro a abril daquele ano foi um total de 22 IPOs, em contraste com o que se viu nos últimos anos.
Com o mercado ainda fraco, o início do ano tem frustrado bancos de investimento e companhias que esperavam acessar a bolsa em 2024. Isso porque as projeções de queda de juros nos Estados Unidos estão sendo jogadas cada vez mais à frente, a cada divulgação de dados que mostram a economia americana ainda muito aquecida, indicando a potencial necessidade de manutenção de taxas elevadas por mais tempo. Isso já começa a colocar para frente a esperada abertura da janela para IPOs.
Por aqui, a saúde fiscal do Brasil também tem colocado em xeque operações no mercado. Empresas já listadas com possibilidade de aguardar valorização dos ativos estão optando pela espera, a fim de evitar a diluição de acionistas.
O corresponsável pelo banco de investimento do Bank of America (BofA) no Brasil, Bruno Saraiva, aponta que as constantes postergações do início do corte de juros nos Estados Unidos têm jogado para frente a retomada do mercado no Brasil, algo que tem frustrado as expectativas do começo do ano. O executivo lembra que o banco começou 2024 com uma projeção de que haveria cinco cortes de juros pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano). Mais recentemente, a expectativa passou para apenas uma redução em dezembro, mudança decorrente de dados mostrarem resiliência da inflação no país. “Hoje está mais difícil saber quando haverá transação”, comenta. “Quando as taxas começarem a fechar (nos EUA), os emergentes vão ganhar”.
Já o responsável pela área de renda variável da XP, Vitor Saraiva, aponta que as projeções foram sendo empurradas à medida que saíram dados de inflação dos Estados Unidos, mas ainda acredita que há chances de “alguns IPOs” no final do ano, isso se mantida a expectativa de que o Fed iniciará o ciclo de corte das taxas ainda em 2023. “Hoje, se tiver [IPOs], será mais para o fim do ano”, afirma.
O executivo da XP diz que a oferta subsequente da Boa Safra, que teve boa demanda do mercado apesar da volatilidade, mostra que empresas que estão entregando resultados têm espaço para captar. “Empresas boas, com boas histórias ganham credibilidade com o mercado.”
O chefe de mercado de capitais do Morgan Stanley na América Latina, Marcello Lo Re, aponta que uma retomada do mercado já tem sido observada em outros países da América Latina, especialmente no México, onde a instituição financeira tem se debruçado, dado o aumento da atividade de mercado de capitais. Já no Brasil, segundo o executivo, os olhos seguem voltados ao segundo semestre, especialmente mais para o fim do ano. “A partir de setembro existe ainda um fator temporal, já que os investidores começam a olhar os números relativos a 2025”, diz.
Fonte: Valor Econômico

