Em uma série de entrevistas ao “Financial Times”, autoridades graduadas do Ocidente expressaram seus temores de que a era de excepcionalidade do Ártico – quando a região polar era isolada das tensões de outras partes do mundo – possa ter acabado.
Os sete países ocidentais membros do Conselho do Ártico, o principal órgão regional, pararam de cooperar com a Rússia em tudo, da proteção do meio ambiente à discussão dos direitos dos povos originários, depois da invasão da Ucrânia no ano passado.
“A situação não é normal”, diz Jonas Gahr Store, premiê da Noruega, que assumiu a presidência do Conselho do Ártico no mês passado, que até então era da Rússia.
O premiê da Finlândia, Pekka Haavisto, disse estar preocupado que o impasse resultante possa criar “um Ártico sem regras, ou uma área do Ártico sem um objetivo comum para as mudanças climáticas. Liberado para qualquer um usá-lo como rota de transporte de matérias-primas”.
Uma autoridade graduada de outro país do Conselho do Ártico acrescenta: “A preocupação é que a Rússia e a China façam seu próprio Conselho do Ártico”.
No fim de seu mandato como presidente do comitê dos altos funcionários do Conselho do Ártico, o russo Nikolai Korchunov disse que Moscou poderá se retirar da organização se não for convidado a participar de eventos durante a presidência norueguesa.
“Não convidar os representantes da Rússia para os eventos do Conselho do Ártico significaria uma violação de seus direitos como país-membro, e nesse caso dificilmente seria possível para o nosso país continuar participando das atividades desta organização”, disse Korchunov em uma entrevista à agência de notícias estatal “Tass”.
Diante do que chamou de “papel mais fraco” do conselho, que atribuiu à ação dos membros ocidentais, Korchunov disse que a Rússia está contactando outros países e organizações e “já estaria conduzindo um diálogo ativo sobre a agenda do Ártico” com eles.
As relações da Rússia com a China sobre o Ártico sempre foram tensas. Mas desde o começo da guerra na Ucrânia isso parece estar mudando. Durante uma visita do líder chinês, Xi Jinping, a Moscou em março, os dois países anunciaram a criação de um grupo de trabalho conjunto para o desenvolvimento da Rota do Mar do Norte, uma rota marítima que é o principal projeto de desenvolvimento da Rússia no Ártico.
O Ártico é a região do mundo que vem aquecendo mais rápido e isso está levando países próximos e distantes a ficar de olho em suas matérias-primas abundantes, que vão do petróleo e gás a terras raras (leia o texto abaixo).
Os membros do Conselho do Ártico tentaram manter os atritos geopolíticos afastados da região, frequentemente usando o lema “norte elevado, tensões baixas” para enfatizar como as questões ambientais em torno do meio ambiente, o transporte marítimo e a exploração mineral na região polar só poderiam ser resolvidas em conjunto. Mas nos últimos anos a Rússia aumentou significativamente sua presença militar no Ártico, levando outros países como Dinamarca e Noruega a responder construindo novas instalações de defesa no extremo norte.
A China, um dos países não-árticos com status de observador no Conselho do Ártico, lançou planos para uma “Rota da Seda Polar” em 2018 e vem tentando ampliar sua influência sobre aquela que é uma das últimas fronteiras de exploração do planeta.
Tentativas de companhias estatais chinesas de construir aeroportos na Groenlândia, uma parte autônoma da Dinamarca, foram barradas em 2019 depois que os EUA instaram Copenhague a conter os planos.
Mette Frederiksen, premiê da Dinamarca, que visitará a Groenlândia na semana que vem após se encontrar com o presidente americano, Joe Biden, na Casa Branca, disse: “Não sejamos ingênuos. Não podemos ser ingênuos em relação à Ucrânia e não podemos ser ingênuos em relação à região ártica. As coisas voltarão ao normal no Conselho do Ártico? Acho que não, em se tratando da Rússia. A China está desempenhando um papel na região do Ártico? Sim, está. Devemos estar cientes disso? Sim”.
Pekka Haavisto disse estar preocupado com a possibilidade de a excepcionalidade do Ártico ter acabado. “Há também muitos outros países que veem o uso do Ártico e suas matérias-primas como uma questão tentadora. Temos um interesse comum muito forte em trabalhar juntos.”
A Noruega está lutando para manter o Conselho do Ártico atuando o máximo que pode com os outros membros – EUA, Canadá, Finlândia, Suécia, Dinamarca e Islândia -, enquanto tenta dar um gelo na Rússia.
“O Conselho do Ártico veio para ficar”, disse Store. “Há tanto em comum – em termos de desafios e oportunidades -, que seria de uma irresponsabilidade total desviar o olhar da organização.”
Mas diplomatas admitem que a exclusão de fato da Rússia do conselho cria um “dilema claro”. Uma graduada autoridade para o Ártico acrescentou: “De um lado, a agenda que queremos promover no Ártico não faz muito sentido sem a Rússia. Ela representa 40% do Ártico. Por outro lado, não podemos cooperar com a Rússia no momento. É com isso que estamos lutando.”
Fonte: Valor Econômico


