A demanda estrangeira esteve presente, ao procurar, especialmente, as blue chips, em um movimento que sugere uma rotação nas carteiras, já que a sessão de ontem penalizou bastante as big techs americanas. Mas, com a bolsa brasileira ainda descontada mesmo com recordes nominais do Ibovespa desde a segunda metade de 2025, o otimismo com as ações domésticas pode ter uma janela positiva para seguir em frente.
Nos últimos dias, inclusive, essa sensação foi reforçada. Quatro grandes bancos — dois locais e dois estrangeiros — destacaram recomendação “overweight” para a bolsa brasileira, o equivalente a uma exposição acima da média do mercado.
O Goldman Sachs foi o primeiro a mostrar empolgação com a bolsa neste ano, ao destacar a tese de que 2026 será um período bastante positivo para as ações de mercados emergentes. O chefe de ações emergentes na divisão de global banking e mercados do Goldman, Stratford Denis, espera uma valorização de 15% do fundo de índice de mercados emergentes da MSCI (EEM) e acredita que essa classe de ativos de risco será a de melhor performance na próxima década.
A justificativa, para Denis, é a de que o “valuation” das ações emergentes é atrativo; há uma exposição natural ao tema de dólar fraco; os investidores globais ainda estão sublocados; e, do ponto de vista de risco e retorno, o EEM é um índice bastante diversificado.
É nesse contexto que, para Denis, o Brasil é uma das principais escolhas. “Ainda que as perspectivas eleitorais tenham ficado mais incertas — e esse era um dos motivos que sustentava a tese otimista com o Brasil — , o país ainda é uma das principais escolhas dentro do universo emergente”, afirma.
De acordo com o executivo, há a expectativa de 2,5 pontos percentuais de cortes de juros, que devem beneficiar as ações locais. “O que vimos nos últimos anos é que o Brasil tem uma das taxas de juro real mais altas do mundo. E a ampla maioria do dinheiro local migrou para a renda fixa por conta disso. Com os cortes de juros, devemos ver uma reversão deste movimento. Se houver entrada de capital estrangeiro na região, estaremos em um bom lugar”, enfatiza.
Para ele, ainda que a perspectiva de mudança de governo tenha ficado mais incerta, a vitória de um candidato mais alinhado ao mercado poderia ser um catalisador importante para a performance superior do Brasil.
O Bank of America foi outro banco que, diante da expectativa de um ciclo profundo de cortes de juros neste ano em seu cenário base, elevou a recomendação das ações brasileiras para “overweight”. “Para 2026, esperamos que o próximo ciclo de flexibilização seja um importante impulsionador, já que o Brasil apresenta uma das correlações mais fortes com as taxas mais baixas nos mercados emergentes”, afirma.
É verdade que, especificamente na sessão de ontem, o fluxo estrangeiro “atropelou” eventuais obstáculos e deu força à bolsa, mesmo em um dia de alta dos juros futuros e das taxas das NTN-Bs em toda a curva.
Também ontem, dois importantes agentes locais expressaram otimismo com a bolsa, o que reforçou a sensação de viés positivo para as ações.
O Itaú BBA, na equipe de estratégia liderada por Daniel Gewehr, elevou a projeção do Ibovespa para 185 mil pontos e manteve a recomendação “overweight” para as ações brasileiras, ao adotar uma visão moderadamente positiva após o índice ter se valorizado 50% em dólares em 2025.
Isso porque, de acordo com o BBA, o “valuation” da bolsa brasileira segue abaixo da média dos emergentes e o ambiente será favorecido por juros mais baixos nos Estados Unidos, pelo fluxo para mercados emergentes e pela perspectiva de uma Selic em queda.
A outra casa foi o BTG Pactual, em que a equipe liderada por Carlos Sequeira manteve o Brasil como “overweight” no portfólio. “À medida que os investidores ganham maior confiança de que o ciclo de afrouxamento monetário está prestes a começar no país, a tendência é que continuem a ampliar a exposição a ações locais”, diz.
“Há alguns meses, posicionamos o portfólio para se beneficiar da queda dos juros tanto no Brasil quanto nos EUA. Pretendemos manter essa estratégia por mais um mês e, portanto, não fizemos alterações na exposição a ações brasileiras”, aponta o estrategista.
Fonte: Valor Econômico
